Resumo: Este artigo pretende abordar a importância do resgate da criança interior para os processos de individuação. Ao contrário da identificação patológica com a criança, presente em nossa sociedade atual, a relação consciente com a criança interior favorece o contato com o inconsciente enquanto fonte de vida e de saúde. A imagem arquetípica da criança reflete uma possibilidade interior de renovação que está associada ao desenvolvimento da fantasia, da atividade lúdica e da expressão da criatividade. O acolhimento dessa imagem durante o processo analítico ajuda a resolver situações conflituosas, promovendo a constelação do Self. Palavras-chave: Criatividade. Criança interior. Fantasia. Processo de individuação. Self
“Na verdade vos digo que, se não converterdes e não vos tomardes como as criancinhas, não entrareis no reino do céus.”
Mateus 18:3
Introdução: O presente artigo visa abordar a importância da criança interior nos processos de transformação psíquica com vistas à individuação, objetivo principal da teoria de C.G. Jung. A Psicologia analítica concebe a psique como um sistema dotado de uma capacidade de transformação e recriação infinitas, na medida em que a mesma é profundamente determinada pelos processos inconscientes. A meta da psique, segundo Jung, é a individuação, ou seja, a realização do ser humano na sua singularidade. O ponto de partida deste artigo é a idéia de individuação enquanto um processo criativo. A capacidade de viver e expressar o potencial criativo seria, portanto, um dos objetivos do processo analítico. As pessoas, geralmente, chegam ao consultório do psicólogo com essa capacidade atrofiada, muitas vezes em decorrência de uma visão parcial sobre si mesmo e sobre a realidade. A dimensão lúdica, a abertura à fantasia e ao humor são de fundamental importância dentro dos processos psicoterápicos pois proporcionam ao ego uma maior permeabilidade ao inconsciente e, consequentemente, um contato com a vida psíquica interior. A tese principal a ser defendida neste artigo é de que uma das formas de desenvolver o potencial criativo seria através da ativação da criança interior. Para sustentar essa tese, voltaremos nossa atenção ao arquétipo da criança e às relações entre o potencial criativo, o brincar e o fantasiar. Dessa forma, espera-se alcançar o objetivo de revisar a questão arquétipo da criança dentro dos processos de individuação¹ Criatividade As pessoas nascem criativas. A criatividade, segundo Jung (1971), é um fator psíquico de natureza semelhante a um instinto. Isso significa dizer que a expressão criativa é uma das necessidades vitais do homem. A psique cria de forma espontânea e autônoma, independente da nossa vontade consciente. O sonho nosso de cada noite é apenas uma das provas a favor dessa afirmativa. O que é a criatividade? Segundo Brehony (1999), as palavras criar e criativo provêm do latim creare, que significa “levar a crescer, levar avante, criar ou produzir” (pg 339). Num sentido mais amplo, que é o que nos interessa, “ser criativo não é apenas ter a capacidade de realizar obras artísticas ou idéias originais. É uma atitude diante da vida, uma maneira de expressar a realidade interior, trazendo-a para o nosso mundo exterior. (Brehony, 1999, pg 339). O ato criativo é definido por Salles (2005, pg 120) “como a busca de soluções, mesmo para as coisas mais simples da vida”. Conforme Barcellos (2006), a psicologia junguiana é “a única psicologia claramente apoiada sobre o instinto criativo” (pg.226). O mesmo autor cita Hillman para sustentar que, de acordo com Jung, tanto o desenvolvimento da personalidade quanto a individuação constituem as tarefas criativas do ser humano. O impulso criativo se caracteriza por uma necessidade de criação que independe da possibilidade de essa vir a ser popular ou recompensada pela sociedade. Nachmanovitch (1993). O mesmo autor diferencia o impulso criativo da criatividade, dizendo que aquele fala de uma necessidade vital de criar, uma tendência quase compulsiva à expressão. Essa expressão nem sempre pode ser realmente criativa, mas o impulso criativo está sempre presente como um propulsor das manifestações criativas. “Por trás do impulso criativo existe um nível mais profundo de compromisso, um estado de comunhão com um todo que está além de nós”. (Nachmanovitch, 1993, pg 23) Esse todo que está além de nós é o Self². O impulso criativo estaria então comprometido com esse todo, promovendo a união com a fonte da qual emanam os símbolos que nos conduzem ao auto-conhecimento e à transformação. No entanto, a capacidade de viver de forma criativa parece soar como uma utopia para a maior parte das pessoas. Uma pesquisa longitudinal sobre criatividade, realizada nos anos sessenta com 1.600 jovens americanos, apontou um resultado impressionante. Num primeiro teste, realizado quando o grupo tinha entre 3 e 5 anos, 98% apresentaram alta criatividade; dez anos depois, o mesmo grupo testado teve o percentual reduzido para 30%. Quando o grupo tinha uma média de 15 anos de idade, o percentual de pessoas altamente criativas chegou a 12%. O mesmo teste foi realizado com adultos maiores de 25 anos, e o percentual foi de apenas 2%. (Land & Jarman, 1990) Se observarmos uma sala cheia de crianças em idade pré-escolar, veremos um mundo rico de cores, formas e sons, colorido pela imaginação e pela inventividade daquelas. Os desenhos dessa fase costumam ser mais ricos, tanto na disposição de cores quanto na riqueza expressiva, do que em qualquer outra fase da vida. Basta o adulto proporcionar um ambiente minimamente estimulante e razoavelmente livre para a criança expressar sua criatividade de acordo com suas tendências. Essa riqueza expressiva vai aos poucos dando lugar à conformidade aos padrões estéticos do senso comum, num progressivo empobrecimento da atividade criativa em nome da adaptação às normas coletivas. Vemos hoje em dia pais e professores cada vez mais ocupados em preparar suas crianças para o mercado de trabalho. Essa lógica utilitarista se reflete nas inúmeras reportagens em jornais e revistas ensinando os pais a fórmula para “criar um filho bem sucedido”. A mensagem por trás dessa postura parece ser a seguinte: “brincar é apenas um passatempo de criancinhas que ainda não têm condições de aprender alguma coisa de útil”. A infância fica, então, como uma etapa mágica da vida em que foi possível dar asas à imaginação. Essa dificuldade em integrar a dimensão lúdica à vida cotidiana se manifesta compensatoriamente e de forma crescente num apelo à puerilidade. Na medida em que esse aspecto lúdico não é integrado como um valor aceito pelo mundo adulto, aparecem mecanismos compensatórios³, como no caso da identificação com a própria puerilidade, dificultando as relações dos indivíduos com a vida. Nachmanovitch (1993) afirma que a adaptação ao mundo “real” implica a afirmação de uma realidade e a negação de outras. Segundo o autor, isso leva as pessoas a construirem a sua própria realidade e a tomá-la como “a” realidade única e universal. Nesse processo dá-se um estreitamento da nossa visão de mundo, pois “esta realidade, tal como a conhecemos, é condicionada por suposições tácitas que acabamos por considerar indiscutíveis, depois de inúmeras experiências sutis de aprendizado na vida diária”. (Nachmanovitch,1993. pg 109) O raciocínio conceitual passa a mediar as experiências. Essa aquisição é necessária, porém superestimada em nossa sociedade. O discurso pedagógico da formação global da pessoa entra em choque com o apelo pela formação e preparação para o “mercado de trabalho”, onde a “técnica” tem a primazia. Essa visão parcial da realidade faz com que a percepção criativa nos pareça extraordinária ou especial, quando, na verdade, “a criatividade é só uma questão de enxergar por trás dessas suposições tácitas o que está diante do nosso nariz”. (Nachmanovitch, 1993, pg 109) Quando se é obrigado a excluir a imaginação e a fantasia como uma forma de relacionamento com a vida, esta se torna concreta e literal. Portanto, a incapacidade de viver criativamente está associada a uma disposição unilateral da consciência. As pessoas chegam ao consultório presas à concretude de suas próprias vidas e às teorias formuladas sobre si mesmas. Aspectos negligenciados durante o processo de desenvolvimento passam a exigir atenção de forma dolorosa, através do sintoma. A neurose surge de modo a compensar a unilateralidade. O objetivo do processo psicoterápico é a retomada da perspectiva subjetiva e criativa da realidade, através da imaginação, da capacidade de brincar, de rir, de desliteralizar a vida. O trabalho com a criança interior visa restabelecer esse processo de forma a possibilitar a reconstrução da personalidade e do caminho para a individuação. A criança interior e a criança arquetípica A criança interior não é a criança que vivemos, e sim aquela que imaginamos ter sido um dia. É a imagem interna daquilo que fomos um dia, imagem de inocência e encantamento, mas também de dor e abandono. O arquétipo da criança remete à possibilidade de realização, um vir a ser. Aqui, a criança exterior encontra-se com a criança simbólica enquanto a portadora dessa força criativa capaz de promover a religação do ego com suas fontes de equilíbrio. Para Jung (2000), o motivo da criança e sua repetição ritual funcionam como um elo de ligação com as condições originais da psique. Para Bachelard (1990), há um núcleo da infância que permanece no centro da psique humana. É lá que a imaginação e a memória estão mais intimamente entrelaçadas. É lá também que o ser da infância liga o real ao imaginário, que ele vive as imagens da realidade na total imaginação:
Em nossos sonhos de volta à infância, nos poemas que todos gostaríamos de escrever para dar nova vida, outra vez aos devaneios originais, para nos devolver o universo da felicidade, a infância aparece no próprio estilo da psicologia profunda como um verdadeiro arquétipo, o arquétipo da simples felicidade. É por certo uma imagem em nós, um centro para imagens que atrai imagens felizes e repele as experiências de infelicidade. Mas essa imagem, no seu princípio, não é completamente nossa; ela tem raízes mais profundas do que as nossas meras recordações. Nossa infância testemunha a infância do homem, do ser que é tocado pela glória de estar vivo” (Bachelard, 1990, pg 53)
A imagem da criança interior guarda, portanto, a promessa de uma vida rica de significados. (Bachelard, 1990). Essa imagem existe enquanto possibilidade, mas só irá se tornar uma realidade mediante o emprego da vontade consciente. Foi o que aconteceu com Jung no momento da cisão definitiva com Freud. Ele recorreu à sua criança interior como fonte de equilíbrio frente às enormes pressões exteriores e interiores. Entregando-se durante um longo período a brincadeiras solitárias, Jung viu desabrochar uma confiança interior no seu potencial criativo e, daquele período, adveio a maior parte de extensa e profícua produção intelectual. Ali ele descobriu o poder criativo da criança interior. A segunda metade da sua vida pôde ser plena mediante o encontro com a primeira. Nos braços da Grande Mãe Inicialmente, o bebê se encontra em total indiferenciação, num estado primitivo de identificação.(Fordham, 1994) Nesse estado, também conhecido como urobórico, vive-se uma experiência de totalidade com o mundo (unus mundus), não havendo ainda uma separação entre realidade interior e exterior. O bebê, em sua total dependência, vive a experiência arquetípica de embalar-se no colo da Grande Mãe. Esse embalo, com seu ritmo próprio e único para cada criança, é o movimento da alma ainda inconsciente. Através dos cuidados dispensados pela mãe, o bebê adquire a noção de que o mundo é um lugar bom, e de que a vida merece ser vivida. Essa noção se relaciona com a capacidade de viver criativamente. descobrimos que os indivíduos vivem criativamente e sentem que a vida merece ser vivida ou, então, que não podem viver criativamente e têm dúvidas sobre o valor de viver. Esta variável nos seres humanos está diretamente relacionada à qualidade e à quantidade das provisões ambientais no começo ou nas fases primitivas da experiência de vida de cada bebê. (Winnicott, 1975,pg 102) Neumann (1979) localizou nessa etapa inicial da vida as raízes do que ela chamou de Consciência matriarcal. Segundo o autor, nos primeiros anos de vida, em que não há um ego ainda formado, o bebê estaria mais próximo de uma conexão com o inconsciente e, portanto, das fontes criativas. Esse autor coloca a consciência matriarcal como um contraponto importante à consciência patriarcal – esta relacionada ao desenvolvimento da racionalidade, do discurso lógico, da praticidade e da atividade. A consciência matriarcal permite um tipo de sabedoria diferente, relacionada a uma percepção pela via do sentimento e da intuição. A criatividade seria, então, uma propriedade dessa consciência feminina, ligada ao inconsciente. A natureza lúdica da vida Os bebês, quando satisfeitos em suas necessidades básicas (higiene, alimentação e sono), costumam brincar com o cabelo ou com o bico do seio da mãe. Pesquisas recentes, realizadas através dos modernos exames de ultrassonografia, indicam a presença da atividade lúdica em fetos.(Caron, 2000) O brincar é a forma através da qual a criança conhece e explora o mundo. Mas o que é o mundo para um bebê? Do ponto de vista psíquico, o bebê e o mundo são uma coisa só. Nesse estado inicial da vida não há distinção entre dentro e fora, pois não há um eu. Vive-se a experiência da união cósmica com o self. Portanto, o bebê vivencia aspectos do self através da brincadeira que, segundo Fordham, “torna-se parte de um método no qual o bebê desenvolve uma relação consigo mesmo e com o mundo exterior, também participando da organização da atividade imaginativa acarretada por processos que têm lugar no self.” (Fordham, 1994, pg 24) O bebê constrói sua subjetividade através da brincadeira e da imaginação. Ele começa a “deixar de ser um self” para formar representações do self. (Fordham, 1994) Essas representações são fundamentais para a constituição de um indivíduo saudável. Winnicott (1975) coloca que é no brincar que a criança ou o adulto fruem sua capacidade de criação. Na brincadeira o indivíduo usa toda a sua personalidade, e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu. Retomando aqui o conceito de Salles anteriormente citado, o ato criativo é a busca de soluções para as questões práticas da vida. Assim, a brincadeira e a fantasia são criativas na medida em que ajudam a criança a resolver a sua maior tarefa: o desenvolvimento de um senso de identidade. O destino da criança, como foi dito antes, é o desenvolvimento da identidade e o abandono do paraíso da inconsciência. Esse senso de identidade emerge do Self através da fantasia criativa. Diversos autores, como Melanie Klein, consideram a hipótese da existência da fantasia já nas etapas iniciais da vida. O que podemos afirmar é que a fantasia é um produto espontâneo da psique, e que aparece de forma mais visível na criança, pois essa mantém um contato direto com a base instintiva humana, que é o inconsciente coletivo. A fantasia surge como uma forma de relação da criança com o seu mundo interno e o externo. Salles(2005), citando Jung, afirma que a fantasia possui uma função criativa, pois conecta o indivíduo com as imagens primordiais, às raízes da vida primitiva, à fonte de vida psíquica. “A fantasia é dinâmica, influencia o meio circundante e ao mesmo tempo o seu autor”. (Salles, 2005, pg. 121) Sobre o valor da fantasia, Jung diz:
No fundo, no fundo, nunca superamos a fantasia. (...) Toda a obra humana é fruto da fantasia criativa. Se assim é, como fazer pouco caso do poder da imaginação? Além disso, normalmente, a fantasia não erra, porque sua ligação com a base instintual humana e animal é por demais profunda e íntima. É surpreendente como a fantasia sempre chega a propósito. O poder da imaginação, com sua capacidade criativa, liberta o homem da prisão de sua pequenez, do ser “só isso” e o eleva ao estado lúdico. O homem, como diz SCHILLER, ‘só é totalmente homem quando brinca’.. (Jung 2008, pg 43)
A fantasia é ao mesmo tempo criativa e receptiva (Salles, 2005) Essa qualidade receptiva frente às imagens que se apresentam está intimamente ligada à anima e ao arquétipo da Grande mãe. “O modo autêntico e específico da realização do criativo só acontece quando estamos na alma”. (Barcellos, 2006, pg 224). A expressão da fantasia criativa nas suas variadas formas movimenta a função simbólica da psique, chamada por Jung de função transcendente. Essa função permite o reconhecimento e a união de opostos na psique. Ela é a própria função de transformação, e deve ser encarada como o objetivo do processo. (Barcellos, 2006) Afinal, é justamente a contraposição entre a consciência e os conteúdos do inconsciente que leva a uma mudança no ponto de vista. (Jung, 1997, pg. 192) Tendo discorrido sobre o tema da criatividade e da criança interior, cabe aqui retomar a questão inicial deste artigo: afinal, como o contato com a criança interior pode favorecer os processos psicoterápicos / de individuação?A criança interior permeia todo o trabalho analítico. A própria busca pela psicoterapia não deixa de ser uma concessão à criança interior, na medida em que o paciente se submete à autoridade de alguém com a promessa de ser cuidado por este. Segundo Jacoby (2003), nas raízes da relação transferencial está o arquétipo da Grande mãe. As necessidades instintivas de proteção e nutrição, próprias da criança, estão presentes na relação terapêutica. A maneira como o paciente se relaciona com o terapeuta diz muito sobre a criança interior daquele. A psicoterapia junguiana, como foi dito anteriormente, dedica-se aos aspectos criativos e prospectivos da personalidade. Nessa jornada em busca do autoconhecimento, o terapeuta junguiano convida o paciente a lançar-se em tal aventura de forma lúdica, acolhendo a parcela negligenciada de sua personalidade. As descobertas mais importantes se dão na medida em que o paciente consegue afrouxar seu sistema de defesas egóicas, deixando-se permear pelo inconsciente. Esta espécie de regressão criativa nada mais é que o contato com a criança interior. O ato de brincar proporciona a emergência do impulso criativo e da capacidade expressiva da psique, o que, em última instância, é o que irá possibilitar um processo de interiorização favorável à individuação.4 O arsenal de técnicas expressivas empregadas na clínica favorecem a capacidade de auto-transformação da psique e a ativação da criança interior. Nas atividades lúdicas e criativas o ego se submete ao poder do Self, permitindo a emergência do novo. Esta espécie de regressão, no entanto, só é indicada quando o paciente possui um complexo de ego suficientemente estruturado. Em muitos casos faz-se necessário, inicialmente, um trabalho de fortalecimento do ego e de ampliação da consciência. A relação do terapeuta com a sua criança interior é de fundamental importância. O terapeuta que está atento a essa realidade interna, mantendo viva a sua natureza criativa, consegue mais facilmente ajudar seus pacientes a vivenciarem essa realidade. Quando a criança interior do terapeuta é desconhecida, maiores são as chances de formar-se uma aliança inconsciente entre a criança abandonada do terapeuta e a do paciente. Dar vazão à brincadeira e à fantasia não significa infantilizar-se, no sentido de ficar preso, enquanto adulto, a uma postura imatura e egoísta. Pelo contrário, a busca pela criança interior, realizada de forma consciente, liberta o paciente da influência negativa de uma criança interior abandonada. Muitas vezes a imagem da criança aparece nos sonhos. Uma senhora de meia-idade, que procurou psicoterapia sentindo-se insegura, dependente e deprimida, relata o seguinte sonho, ainda numa etapa inicial do processo:
“estou num velório de uma filha de uma ex-colega minha. As pessoas parecem indiferentes em relação a esta morte. Aproximando-me do caixão, percebo que a menina na verdade não está morta. No exato momento que percebo isso, ela salta do caixão e começa a dançar alegremente, fazendo piruetas.”
A criança interior está ali presente, bastando um olhar desta mulher para tirá-la da condição de quase-morta. Vimos juntos que havia um grande potencial de renovação podendo ser resgatado. Esse sonho passou a orientar o processo, ajudando a paciente a acolher tanto sua criança interior negligenciada, quanto a dar vazão à sua natureza lúdica e espontânea. Em relação ao símbolo da criança, Jung diz que esta prepara uma futura mudança da personalidade. No processo de individuação, antecipa uma figura que vem da síntese entre elementos conscientes e inconscientes da personalidade. Portanto, é um símbolo de unificação dos opostos. (Jung 2000, Pg 165) Conclui-se, a partir do que foi exposto acima, que a fantasia, a dimensão lúdica e criativa da vida existem enquanto potencial na vida de todos nós. Elas pertencem à esfera infantil de nossa personalidade, e são forças vivas que ajudam a sustentar a personalidade adulta. Essas podem e devem ser desenvolvidas dentro do processo psicoterapêutico, pois se esse aspecto negligenciado não for reintegrado, ele permanece exigindo atenção e gerando dificuldades no relacionamento com a vida. É através da criança interior que encontramos as saídas criativas para as situações de conflito, favorecendo o processo de individuação.
Notas: 1 - Individuação. Trata-se de um dos conceitos centrais da obra de Jung. “Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por individualidade entendemos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável”. “a individuação só pode significar um processo de desenvolvimento psicológico que faculte a realização das qualidades individuais dadas; em outras palavras, é um processo mediante o qual um homem se torna o ser único que é” (Sharp, pg. 90) Barcellos (2006) ressalta que “a individuação é o ponto central da obra de Jung e o princípio básico a ser considerado no trabalho analítico”. 2 - Jung usa o termo enantiodromia para explicar esse tipo de fenômeno. Quando a consciência tende a um extremo, diz Sharp,(1993), surge com o tempo uma contraposição igualmente extrema e inibidora da atitude consciente. Segundo a autora, a enantiodromia “é experimentada, tipicamente, junto com sintomas associados à neurose aguda e, muitas vezes, pressagia um renascimento da personalidade” (pg 59) 3 - Self: segundo Sharp (1993), “é o arquétipo da totalidade e o centro regulador da psique(...) a realização do self como fator psíquico autônomo é, frequentemente, estimulada pela irrupção de conteúdos inconscientes, sobre os quais o ego não tem controle”. (pg 142) 4 – “A regressão da energia põe-nos frente a frente com nossa própria psicologia. Do ponto de vista da finalidade, portanto, a regressão é tão necessária para o processo de desenvolvimento quanto o é a progressão.” (Sharp, 1993, pg 137) Segundo Jung (Collected Works V, vol II, pg 253) “a regressão pode ser temporária e em prol de uma renovação psicológica e do renascimento simbólico” (apud Weinrib, 1993 pg 32)
Referências Bibliográficas: BACHELARD, G. Devaneios sobre a infância, in: ABRAMS, J. (org). O reencontro da criança interior. São Paulo: Cultrix, 1990. BARCELLOS, G. Vôos e raízes. São Paulo: Ágora, 2006 BREHONY, K. Despertando na meia-idade. São Paulo: Paulus, 1999 CARON, N.A., A relação pais-bebê: da observação à clínica. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000 FORDHAM, M. A criança como indivíduo. São Paulo: Cultrix, 1994 JACOBY, M. O encontro analítico. São Paulo: Cultrix, 2003. JUNG, C.G. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2003 __________. A prática da psicoterapia. Petrópolis: Vozes, 2008 __________. Memórias, sonhos, reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997 __________. Mysterium Coniunctionis. Petrópolis: Vozes, 1997. __________. Os Arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000 LAND, G. JARMAN, B. Pontos de ruptura e transformação. São Paulo: Cultrix, 1990 NACHMANOVITCH, S. Ser criativo. São Paulo: Summus Editorial, 1993 NEUMANN, E. A lua e a consciência matriarcal in: HILLMAN, J.(org) Pais e Filhos. São Paulo: Símbolo, 1979 SALLES, C.A. A fantasia como função psíquica: o substrato da criatividade. In: Cadernos Junguianos v 1, nº 1, novembro de 2005. São Paulo: AJB, 2005 SHARP, D. Léxico Junguiano. São Paulo: Cultrix, 1993 WEINRIB, E. Imagens do Self. O processo terapêutico na caixa de areia. São Paulo: Summus, 1993 WINNICOTT, D.W., O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
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