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“Apartheid Social” - uma realidade de nossos dias  
Esse Brasil lindo e trigueiro,
É o meu Brasil Brasileiro
Terra de samba e pandeiro,
Brasil...
Ary Barroso

Damatta (1993) coloca que investigar as representações de natureza da sociedade brasileira é um projeto vasto, fascinante e extremamente complexo, porque o Brasil é dotado de uma grande variedade regional e uma sociedade com gritantes diferenças sociais. Mas, admitir  a fragmentação, o conflito e a disputas, não nos exime de buscar um significado de tais processos.
Durante este ano, escutei de um africano, sua opinião sobre Brasil, numa conversa de corredor, informal. Porém, suas palavras me impactaram de tal forma, que me incentivaram a construir estas reflexões. Ele disse que achou o Brasil um país pobre. Eu, muito surpresa, o questionei: como assim? Aqui há muita riqueza também. E a África, não é muito mais pobre? Mas ele respondeu: Há pobreza por lá, talvez, em maior intensidade, mas a desigualdade social de vocês é muito maior, por isso acho que no Brasil nem precisaria existir um Apartheid Racial, pois acontece, hoje, um Apartheid Social. Independente da razão, de estar certo ou não, o fato de levantar tal fenômeno: “Apartheid Social” me mobilizou.
Apartheid é traduzido como segregação racial ou política de segregação racial. Palavra de origem africana, adotada legalmente em 1948, na África do Sul, para designar um regime segundo o qual os brancos detinham o poder e os povos restantes eram obrigados a viver separados dos brancos, de acordo com regras que os impediam de ser verdadeiros cidadãos.
Pensar na analogia: “Apartheid Social”, me leva algumas questões.  Nota-se o quanto este movimento representa uma dinâmica de um inconsciente cultural, onde uns se colocam no centro, enquanto outros estão a margem de uma sociedade dominante. A dinânima da persona e a sombra dos brasileiros. Boechat (2009) cita Holanda, colocando que “a contribuição do Brasil para civilização será a cordialidade. Nós daremos para o mundo o homem cordial” (Holanda, 1999,p.146), colocando, sempre, os interesses privados acima do público.  Para o autor, “a polidez é um disfarce que, permite, a cada qual, preservar sua sensibilidade e suas emoções”. Logo, a persona do homem brasileiro e sua chamada cordialidade opera como defesa, ocultando sentimentos reais. Por isso, para Boechat (2009), o inconsciente cultural brasileiro apresenta uma polaridade, que a psicologia analítica considera a mais perigosa: a dissociação de conteúdos psquícos. O resultado disto é uma grande energia entre a “persona sofisticada do homem cordial e o seu racismo cordial, uma sombra de ódio, atitude superior e desprezo sutil com aqueles que permanecem abaixo na perâmide social” (Boecht, 2009).  Isto é, por um lado, uma persona cordial e calorosa do povo brasileiro; por outro; um lado segregado, excluído e escondido no inconsciente. Há uma dualidade: o pobre e o rico; o submisso/excluído e o poderoso/incluído; o sujo e o limpo, entre outras polaridades que representam uma hierarquia, na qual o não valor de um lado, garante o valor do outro. Mas isto se contitui, como, no sujeito? O que conta para um ter valor e outro não? É um merecimento? Ou um castigo? Neste caso, um castigo, no sentido da injustiça de se passar ou viver em tal situação. Muito escuto, de algumas passoas, que passam ou vivem em uma situação difícil ou em condições precárias: porque comigo? O que eu fiz para merecer isto? O que Deus quer de mim?
Jung (2007) vai além deste entendimento, pois a interpretação moral do processo de transformação, como um “castigo” é falha, dando a impressão de que não corresponde devidamente ao “rito de despedaçamento”. Tal rito é marcado pelo processo conhecido na alquimia como a discriminação e o autoconhecimento.
Esse processo psicológico é extremamente doloroso, já que só pode se conseguir à custa de sofrimentos, pois trata-se de uma renúncia daquilo que esperamos de nós, das nossas próprias expectativas. Poder aceitar aquilo que eu sou e tenho, não o que poderia ser e ter. Neste lugar Jung (2007) diz que se encontra a luz do inconsciente, o elixir, o numinoso.
Jung (2003), exemplifica este processo, trazendo a imagem de Saulo. Este não deve sua conversão nem ao amor verdadeiro, nem à sua fé, nem a uma verdade qualquer.  “Ele viveu seu maior erro com convicção, e foi isto precisamente que nele determinou a experiência vivida” (Jung, 2003,p.503). Houve um encontro com o Self, uma renúncia e derrota do ego. Então, pode-se pensar que o que libertou é ele aceitar aquilo que não era aceito dentro dele, dando espaço digno para este lado de sua natureza. Logo, a partir deste exemplo, podemos perceber, que o sofrimento surge quando em nosso interior há a segregação, devido a uma incompreensão do lado que não é assimilado em nós, seja o lado mal ou sombrio de nossa natureza. Isto é o gerador da ameaça em nós.  Assim, podemos pensar que é pela conecção e integração da sombra que chegamos ao sagrado.
Em minha prática, de 17 meses, convivendo, diariamente, com adolescentes de periferia, vejo o quanto é difícil trasnpor estas reflexões. Adolescentes precisam de padrões coletivos/culturais e referências para eles se constituirem.  A construção da identidade passa por esta interação de aspectos internos e externos. Sabe-se que mesmo que esta construção se perdure por todo o ciclo vital é na adolescência que ela se consolida. Então, como espelhar outras possibilidades se há uma identificação com a exclusão, a marginalidade, que, muitas vezes, lhe são impostas? Será que há como despertar o desejo e a expectaiva de serem incluídos?
Penso na violência, ali presente como resposta aquilo que é projetado neles, uma possessão e atuação da sombra ali colocada. Eles acabam refletindo aquilo que esperam deles. Por exemplo, é comum a sociedade ter medo deles, ao os verem pelas ruas. Percebo que eles até construiram imagens e posturas que reforçam esta idéia. Enfim, uma diluição da psique.
Muitos colegas, durante este meu trabalho me questionaram: Você não tem medo deles? Sempre tive a oportunidade de me confrontar com este sentimento, como todos nós. Mas neste caso o medo me levou a muitos lugares em mim: encontrei o pequeno e o maior de mim, o possível e o impossível, continuar e desistir, o bom e o ruim, o justo e o injusto, e por fim a vida e a morte. A todo tempo isto era ambivalente dentro de mim. Ao encontrar as palavras de Jung, descritas a cima, me fez perceber que, há os dois lados em mim e no mundo. Não há como nega-los. Mas ao aceita-los, renunciando aquilo que não é; e não pode ser; torna possível a construção de algo. Abri mão de tudo que esperava deles e de mim e quando fiz isto, me surpreendi com o retorno. Vi eles de outra forma, a realidade de outro jeito e algo aconteceu. Transmitindo esta postura a eles, propondo um outro encontro, com o possível de nós a aproximação se deu. Não esperava que eles melhorassem, parassem de roubar ou traficar. Lidei com o meu desejo e expectativa de doutrina-los, inclui-los. Aprendi, só os esperar. Alguns desistiram, outros retornavam aos nossos encontros. O que eu fazia com eles? Muito pouco. Só estava lá. Aos poucos, vi que o que fazia, não fazia a menor diferença, mas eu estar lá, sem expectativas, exigências, fazia toda. Tentava, com muito esforço, ir além da compreensão de certo e errado, entender o que há por traz e principalmente, trabalhar o que Jung (1999), chama de “fortalecimento interior” do indivíduo, re-conectando o a sua moral, sua conexão interna e externa. Para Jung (1999):
“a moral não foi trazida do alto do Sinai, em forma de tábuas e imposta ao povo, mas constitui uma função da alma humana, tão antiga quanto a própria humanidade. A moral não é imposta de fora, nós a temos definitivamente dentro de nós mesmos, a priori, não a lei, mas o ser moral, sem o que seria impossível conviver em sociedade.”(C.G.Jung, 1999, p.19).
Buscar esta reflexão com eles foi o minha proposta.
Jung (2003), levanta outro ponto em relação ao cuidador de almas referente ao contato com a dor do outro:
O contato, com efeito, só se estabelece graças a uma objetividade isenta de qualquer preconceito...Trata-se de uma atitude humana profundamente respeitosa em relação ao fato, em relação ao homem que sofre esse fato e em relação ao enigma que a vida desse homem implica. O homem autenticamente religioso assume precisamente tal atitude. Ele sabe que Deus criou todas as espécies de estranhezas e coisas incompreensíveis, e que procurará atingir o coração humano pelos caminhos mais obscuros possíveis. È por isso que a alma religiosa sente a presença obscura da vontade divina em todas as coisas. (Jung, 2003,p.519)
Portanto, para Jung (2003) este profissional necessita aceitar seu cliente tal como ele é, porém não poderá fazer isto, enquanto não aceitar a si mesmo previamente, “tal como é, em todo o seu ser, com todas suas falhas” (Jung, 2003, p.520). Jung (2003), diz que mesmo parecendo simples, este é um processo muito difícil.
De fato, a simplicidade constitui a arte suprema e assim a aceitação de si mesmo é a essência do problema moral e o centro de toda uma concepção do mundo. Que eu faça um mendigo sentar-se à minha mesa, que eu perdoe àquele que me ofende e me esforce por amar, inclusive meu inimigo, em nome de Cristo, tudo isto, naturalmente, não deixa de ser uma grande virtude...Mas o que acontecerá, se descubro, porventura, que o menor, o mais miserável de todos, o mais pobre dos mendigos, o mais insolente dos meus caluniadores, o meu inimigo, reside dentro de mim, sou eu mesmo, e preciso da esmola da minha bondade e que eu mesmo sou o inimigo que é necessário amar?  (Jung, 2003,p.520)
Talvez, muito da vontade de ajudar ao próximo, seja um esforço de se ajudar. Todo o trabalho é uma causa própria. Agradeço o aprendizado me proporcionado de entender que o “Apartheid” existe enquanto nós ficamos segregados em nós mesmos, seja o social ou racial. Quando não percebemos o valor do outro, do diferente de nós. Porém, na medida em que me permito vivenciar o “rito de despedaçamento”, onde segrego, discrimino e re-conheço partes escondidas da psique, o diferente em mim, é possível encontrar o milagre – o possível de nós mesmos. Caí o véu das ilusões, vê-se a riqueza das possibilidades, um encontro profundo. Logo, o excluído, o submisso, o marginalizado, o não valor; se integram ao nosso ser como um todo e é possível viver mais pleno consigo e com o mundo que nos cerca.
Referências Bibliográficas:
DAMATTA, R. Conto de Mentira – sete ensaios da antropologia brasileira. Rio de Janeiro: Rocco,1993.
BOECHAT, W. Eros, poder e o racismo cordial: aspectos da formação da identidade brasileira. ANAIS: Congresso Latino Americano. Chile, 2009.
JUNG, C.G. Psicologia e Religião. Petrópolis: Vozes, 2008. 8ªed.
_________. O Símbolo da Transformação da Missa. Petrópolis: Vozes, 2007.4ªed.
_________. Escritos Diversos. Petrópolis: Vozes, 2003.










 
 
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