Na rotina do dia-a-dia os valores, pensamentos e foco perpassam as coisas pequenas, corriqueiras e insignificantes. Com muita naturalidade gastamos anos em cima de questões banais, em implicâncias mesquinhas, ruminando nossos complexos. Porém, quando a vida impõe sua urgência através de uma doença e mostra sua brevidade, o sujeito é chamado a uma ressignificação de seus valores e prioridades. Aquilo que era urgente torna-se, agora, insignificante. O que causava raiva, ansiedade, angústia e preocupação já não importa mais. A vida, então, dá espaço à voz da alma, antes abafada. O corpo enfraquece, a mente aquieta para a correria do dia-a-dia e a alma movimenta-se em benefício de uma vida nunca antes vivida. Neste ensaio pretendo abordar as questões vida, morte e individuação com o enfoque da psicologia profunda de Jung. Meu interesse pelo assunto, além do fato óbvio de que vida e morte são questões arquetípicas que movimentam os questionamentos humanos, já deparei com pacientes em minha clínica, os quais acompanhei no tocante ao tema adoecimento e morte. Considero este o tema mais difícil e, ao mesmo tempo, mais repleto de aprendizado e significado, tanto para o paciente quanto para mim. Minha primeira experiência clínica foi com uma paciente com câncer em estágio avançado da doença. Lembro de ter me formado e, em seguida, dado andamento aos procedimentos legais para começar a atender. Subloquei um consultório e lá estava eu, fazendo contatos, convênios e o que fosse necessário para me iniciar no mercado de trabalho. Transcorrido um tempo relativamente curto fui procurada pelo irmão de uma mulher de 38 anos de idade, que segundo ele, estava fazendo quimioterapia e precisava de um acompanhamento psicológico. Tive um misto de sentimentos naquele momento. Feliz por estar iniciando minha caminhada profissional e assustada com a idéia de encarar uma mulher tão jovem, com câncer. Marquei, com alguma ansiedade, um primeiro encontro. No dia marcado encontrei-a na sala de espera com o rosto manchado pelo efeito da forte medicação e pela ação do sol, semblante fechado. Convidei-a para entrar na sala e conheci sua história. Àquela primeira impressão que tive sobre ela ser fechada desapareceu rapidamente. Deparei com uma mulher simples, sensível, sofrida e afetuosa. Nos meses que se passaram acompanhei seu sofrimento físico e emocional. Muitas vezes fui atendê-la no hospital enquanto ela submetia-se à quimioterapia. Confesso que foram momentos especiais àqueles que passei com ela. Era um misto de compaixão, de admiração pela força que demonstrava frente à dor e seu empenho em olhar para si própria naquele período difícil de sua vida. Quando a conheci pensei: “O que eu vou dizer a alguém que está morrendo? Como vou poder ajudar em uma circunstância tão grave?”. Na medida em que a fui conhecendo e que construímos um vínculo estes pensamentos me abandonaram por completo. Desde o início do tratamento pedi-lhe que anotasse os seus sonhos, o que fez prontamente. E, para minha surpresa e satisfação o Self da paciente nos conduziu de uma forma cuidadosa e alentadora. A paciente depositou muita confiança em mim a partir do afeto que se desenvolveu entre nós. E, quanto a mim, coloquei toda a minha atenção nos apontamentos de seus sonhos. Minha sensação era de que a paciente foi resgatando partes perdidas de seu passado através das pequenas histórias que os sonhos nos “contavam”. Sentia que isso lhe apaziguava e a mim também. Como uma iniciante na psicologia me senti tão cuidada pelo Self da paciente, quanto ela que sofria de uma doença tão penosa. Quando já estava muito fraca e debilitada relatou-me um sonho – na verdade o último que teve – que foi extremamente significativo: estávamos ela e eu na carroceria de um caminhão de mudanças. Suas coisas estavam todas ali e o caminhão não tinha motorista. Andávamos por uma estrada à noite e ao longe ela avistava sua casa e me dizia que queria ir até lá. Eu respondi-lhe que agora não seria mais possível, pois tínhamos que ir adiante. Quando terminou o relato sorriu tranqüila. Não foi muito tempo que estivemos juntas, pois a doença logo lhe ceifou a vida. Porém, foi um encontro intenso e que me sinto incapaz de comunicar o significado que trouxe para nós duas. Guardo a certeza de que ambas fomos transformadas nesse confronto com o significado da vida e da morte. Anos mais tarde, novamente, fui levada a confrontar esse grandioso tema com outro paciente. Desta vez um paciente homem de 42 anos de idade que já vinha em tratamento há mais ou menos quatro anos. Um dia me ligou, num tom de urgência e apreensão pedindo dois horários seguidos, o mais breve possível. Encontramos-nos nesse mesmo dia. Quando chegou à consulta estava visivelmente transtornado. Perguntei-lhe o que estava acontecendo e ele me respondeu que havia saído de uma consulta médica tendo recebido a notícia de que estava com câncer. Ele chorava muito e eu fiquei tentando ordenar o pensamento a partir do choque que me havia sido causado pela circunstância. Dessa vez a perspectiva de encarar um trabalho terapêutico com um paciente com câncer foi diferente daquela primeira. Agora eu já conhecia há bastante tempo o paciente, já havia um vínculo construído. Eu conhecia seus planos, medos e história. Havia uma relação antiga em andamento e a idéia de acompanhá-lo por esse caminho soou triste. Ele passou por algumas cirurgias, acompanhei-o no trajeto quimioterápico, que não funcionou. Acompanhei sua esperança, suas frustrações, sua raiva e seus medos. Em alguns momentos esses sentimentos também fizeram parte de mim. Vê-lo definhar foi muito triste, mas ver sua alma vicejar no processo de adoecimento foi recompensador. Durante o curso de um ano da doença o homem comum de antes se tornou criativo, sensível e mostrou-se extremamente corajoso aos meus olhos. Os medos que carregou durante a maior parte de sua vida transformaram-se em entendimento. À medida que a doença tornava-se mais severa, mais forte ficou sua alma. Chegou, mesmo, a confidenciar que entendia àquela doença como necessidade, pois sem ela estaria olhando para sua conta bancária, para o próximo lançamento do melhor carro no mercado e estaria esquecido de si. Eu não reconhecia mais àquele homem que havia me procurado quatro anos antes, com valores totalmente superficiais e cheio de receios. Frey-Hohn (1995) salienta que na proximidade com a morte é comum aflorar na pessoa, sua sombra, i. é, àquilo que estava guardado e impedido de ser vivido até então. Neste período recorri aos sonhos, intensamente e, novamente, encontramos acolhida no Self. Os seus sonhos mostravam a morte e o renascimento com naturalidade, o que nos encorajou a fazer o mesmo ao olharmos para a possibilidade de uma morte de seu corpo. Seus valores e prioridades foram, pouco a pouco, se transformando e dando lugar a um indivíduo mais humanizado e maduro. Passou a entender sua vida e as pessoas de suas relações de uma forma condescendente e amorosa. A frieza que impunha nos relacionamentos deu lugar à conversas e abraços calorosos. No decorrer desse ano de tratamento me senti muito tocada. Peguei-me, muitas vezes, reavaliando o sentido da vida e gratificada no contato com ele. Reconheço que é preciso coragem para olhar a morte tão de perto, mas quando se torna inevitável, aprendi que se encarada com o devido respeito e sem a negação do forte chamado por ela imposto, a vida passa a ter um novo significado. Jung enfatiza que vida significa ascensão e queda, desenvolver-se e definhar. Vida e morte fazem parte da totalidade. O autor afirma, ainda, que o processo de individuação, quando bem compreendido, é uma preparação para a morte. Quando a vontade própria é contrariada por algo maior, e interfere nos planos do eu é fundamental que haja uma rendição consciente para a emergência de um significado. Em um de nossos encontros, enquanto esse paciente questionava o motivo de ter adoecido, senti vontade de ler para ele uma frase de Jung que eu havia anotado:
Até hoje, Deus é o nome pelo qual designo tudo que se atravessa no caminho de minha obstinação de forma violenta e atrevida, tudo que atrapalha minhas opiniões, planos e intenções subjetivas e muda o curso de minha vida, para o bem ou para o mal.
Essa frase lhe calou fundo porque fez sentido ao que estava vivendo. Apesar do sofrimento e do medo que ele experimentava, repetidas vezes, me disse que se sentia, inexplicavelmente, feliz, pois agora tinha uma visão diferente de sua vida. Foi perceptível a ampliação de seu “campo de visão” psíquica e de sua sensibilidade. O que antes lhe passava despercebido, hoje enriquecia a sua vida. Muitas vezes me relatou estar se deliciando com o barulho da chuva e se encher de felicidade com o sol aquecendo o seu corpo através da vidraça. E, ao mesmo tempo, questionando-se como não percebia isso antes. Com o avanço da doença admitiu que entendia a necessidade dela, pois se não tivesse ficado doente, provavelmente, demoraria muito tempo para adquirir a maturidade que experimentava nesse momento. Jung, em sua experiência e escritos, enfatizou que quando o corpo está morrendo, vê-se nos sonhos que existe uma continuidade psíquica, i. é, a vida psíquica mantém-se viva, não obstante a morte do corpo. E, acrescentou que quem ficar atento aos sonhos estará preparado para a morte muito tempo antes de ela acontecer. Pude constatar essa realidade em meu trabalho clínico relatado acima. Os sonhos preparam o sonhador para a morte do corpo e, nos dois casos que acompanhei, percebi que houve uma aceitação por parte dos doentes e a partir da “rendição” à situação, pôde haver um entendimento sobre o que estavam vivendo. No livro “A morte à luz da psicologia” Jaffé (1995) relata que a concepção de Jung sobre a morte baseia-se na crença na vida, pois “ele via a vida como um setor do Ser que transcende infinitamente os anos vividos”. Em função disso ele se referia à morte como um segundo nascimento. Sobre o tema Jung dizia ainda: “... nosso nascimento é uma morte e, nossa morte um nascimento. Os pratos da balança do Todo estão em equilíbrio”. Esta assertiva de Jung me leva ao seguinte sonho desse último paciente: - Estava no consultório do médico que acompanhava o caso e, este estava rodeado dos familiares do enfermo. O paciente, por mais esforço que fizesse, não recebia atenção, que ia toda para um bebê recém-nascido. Realmente estávamos lidando com o novo, com a iminência de um renascimento. Afirmo isso pelo fato de o paciente ter sido renovado pela doença e porque o homem adulto e doente estava dando lugar a um renascimento através da morte que em breve experimentaria. A partir da experiência que tive, acrescento à idéia de Jung, de que os sonhos preparam o sujeito para a morte, a minha certeza de que os sonhos do paciente preparam o analista para lidar com o tema morte. Posso afirmar que, em minha experiência, os sonhos foram facilitadores na caminhada árdua com o paciente rumo ao término de sua vida. Eu não precisei encontrar o que dizer, ou como dizer, não precisei ficar constrangida em falar sobre a morte, pois os sonhos nos convidavam a olhar para ela. Ao mesmo tempo em que o sofrimento e o medo se apresentavam durante o processo, a certeza da continuidade e o aparecimento do sentido se faziam presentes. O mais difícil em tudo isso foi a perda do contato com pessoas que se tornaram tão especiais para mim. Mas, ao mesmo tempo, as guardo comigo, junto ao aprendizado que recebi através da trajetória na qual os acompanhei, o que certamente me transformou. À respeito disso Frey-Hohn (1995) diz: “Só podemos supor o que ocorre nesses momentos [da morte] quando compartilhamos da experiência com alguém que está à beira da morte, permitindo que seus efeitos repercutam em nós”.
Bibliografia JAFFÉ, Aniela et al. A morte à luz da psicologia. São Paulo: Cultrix, 1995.
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