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A BUSCA PELO SI-MESMO: UMA POSSÍVEL LEITURA.  
A proposta deste artigo é uma reflexão sobre o indivíduo inserido no social da atualidade, onde vivemos a correria da rotina diária e onde reina absoluto, o materialismo imposto pela mídia e suas variantes. Muitas vezes não voltamos nosso olhar para o que existe em nosso interior e que nos impulsiona a sair desse movimento social globalizado. Para tanto, ressaltamos aqui a terapia Junguiana como uma possibilidade para esse processo, onde temos várias imagens de importante simbolismo, das quais abordaremos nesse estudo o Dogma da Trindade. É fundamental que o indivíduo viva o processo de separação desse social e encarne constantemente o processo de individuação, onde o papel da clínica, junto com os símbolos emergentes, é essencial como facilitadores e integradores dessa busca pelo si-mesmo.
O SOCIAL COMO INTRODUÇÃO
O homem da atualidade não parece interessado em questões existenciais. Basta voltar o olhar para a sociedade em que vivemos e somos parte para perceber que as atitudes humanas ultrapassam limites, estando voltadas para seu ego de maneira muitas vezes incondicional. Assim, os homens parecem ter virado deuses, delegando ao outro o lugar de não lugar, não existência, devido a sua “superioridade”, colocando-se em primeiro lugar.
A corrupção, a lei da melhor vantagem, da exploração arraigada em nossa cultura histórica de “descobrimento”, a força de realização de seus desejos acima de qualquer valor humano, entre tantas outras atitudes, caracterizam o contexto social atual desencadeando um movimento em cadeia, atitudes que se associam, se refletem e replicam compondo nossa sociedade e não dão muito espaço para o olhar-se a si mesmo.
Dessa forma, o homem não dá lugar para reflexões sobre religiosidade abrindo espaço para Deus em sua vida, mesmo porque até seu tempo é limitado. Estas a ciência tem pesquisado e se mostrado cada vez mais aberta a estudos que envolvam a atitude religiosa na vida das pessoas e a psicologia cada vez mais se insere nesse meio evoluindo suas técnicas psicoterápicas.  
Assim sendo, a proposta desse estudo é poder refletir sobre o homem inserido nesse social da atualidade, trazendo questões referentes à religiosidade e a ciência; buscando uma compreensão desse contexto e projetando para a busca pelo si-mesmo (Self), ou seja, para uma compreensão mais consciente de quem se é inserido no mundo social.
EM DESENVOLVIMENTO: A IMERSÃO NO SOCIAL
A vida impulsiona para a busca do lugar, de algum lugar que possa nos caber. Hillman (1993), nos fala de um lugar para o corpo na cidade com alma, pois é importante para a alma um lugar para a intimidade; como um lugar para praticar esportes. Esse lugar como um espaço físico almado, que na atualidade está tão difícil de encontrar, pois as pessoas estão cada vez mais individualistas e enclausuradas em seu espaço sem se proporcionar o compartilhar.
Mas também é do humano buscar um lugar no social, que às vezes pode ser o lugar profissional, o lugar de mãe, de pai, de marginalizado (crimes, assaltos, furtos) enfim o lugar subjetivo no qual vivemos vários papéis em vários lugares espaço. Como nos traz Jaffe (1992) essa busca que nos impulsiona está presente no Self, é como algo destinado impulsionando a consciência de si-mesmo.
Ainda nessa procura pelo lugar, segundo Jung, vivemos nossa persona, a máscara que adotamos para viver. Desse modo acabamos por encontrar um espaço, mas passamos a encenar o teatro da vida corrida do dia a dia entre uma máscara e outra, até que elas caiam e o Self possa emergir. O espaço que acabamos ocupando, onde nossa persona se encaixa e representa seus papéis, segundo Hillmam (1993), é a realidade que o exterior apresenta com toda sua materialidade e objetos com a alma corrompida; aqui poderíamos pensar na correria desenfreada da vida no globalismo.
Enquanto as máscaras tomam conta o Self não consegue se mostrar, ficamos então com o ego inflado ocupando nossas vidas. Vivemos nosso eu em espaço e tempo totais e plenos para nós seres humanos, onde abraçamos a roda viva da existência precisando sempre produzir muito e muito, produzir sempre. O olhar é voltado para a vivência de seu eu, em como melhor se realizar para mais “material” obter para ser.
É a era do materialismo imprescindível para que se alcance a felicidade, ter para ser! O lugar não importa para ser, basta ter... ter o melhor carro, casa, posição social, enfim, ter o que se quer ter para ser no lugar que se quer ser. Sem falar no tempo que corre e corrói as engrenagens da produção em massa de seres que parecem tentar dominar o tempo, que correm sempre à frente para alcançar o lugar desejado pelo seu ser social, ser o que demanda a sociedade atual e globalizada em que vivemos, ou quem sabe, a sociedade globalcyber!
Sim, essa sociedade globalizada que prefiro denominar globalcyber. O mundo sem limites para a comunicação, onde se tem acesso via internet a todo tipo de informação que, em uma fração de milésimos de segundos, se abre para o globo e torna os indivíduos seres ilimitados, compondo uma sociedade sem fronteiras onde tudo é possível. Tudo é justificável para que possamos tentar alcançar o mundo que se mostra perfeito para nós via internet, mídia, estética da perfeição etc. Enfim, aquilo que é aceito por esse globalcyber passa a ser desejado pelo social; e qualquer coisa que se faça para estar mais perto desse lugar é justificável.
Esse globalcyber é o sem lugar, onde não há espaço para a alma das coisas, para o que é subjetivo; é o sem limite, não existe limite para esse mundo tomado pela globalização, pela internet, pela estética que remete ao corpo mais perfeito, pelas máscaras e o fundamental, não é mediado pelo valor, pela imagem do Deus interior e norteador do crescimento evolutivo do ser humano e que vem a serviço de uma união desses mundos, ou seja, que vem para auxiliar a psique na comunicação do interior humano com esse exterior que ultrapassa o tempo nesse mundo da atualidade.
Nosso social é o lugar sem Deus, o que podemos pensar no que traz Jaffe (2002), quando fala sobre a morte de Deus e refere que a ausência de Deus na sociedade está afirmando uma contradição, ou seja, uma presença bem verdadeira na vida dos homens, ele é tão ausente que ao mesmo tempo marca sua presença necessária.
Sendo Deus presente ou ausente, quanto mais o tempo passa, esse lugar buscado e que vem como uma projeção natural que impele o indivíduo, mediado pelas máscaras e vivido no social mais se torna vazio, pois os bens se acabam, o que é comprável é simplesmente adquirido, a estética perfeita vai se acumulando até que nenhuma fórmula mais “siliconada” possa resolver.
O indivíduo se alienou nesse quadro sem muitas perspectivas, o que nos remete a Jung (2008) quando refere que essa posição coletiva acaba por deixar a diferenciação pessoal sem ar, oprimida, sem espaço e o indivíduo vivendo o não-eu. Essa alienação coletiva inserida nesse sem limite já preconizava Hillman (1993) quando coloca que é a morte dos Deuses que causa esse sem limite e enormidades, pois desde o Caos existente nos primórdios, tínhamos os titãs dominando nosso universo, ou seja, as enormidades sem limites tomando conta. A partir daí os Deuses tomaram a frente para organizar o Caos existente e em luta travada entre Zeus e os titãs Zeus saiu vencedor, representando a força organizadora desse Caos titânico. Assim sendo, temos a imersão do indivíduo nessa imensidão social como causa da ausência de Deus e na imensidão globalcyber o retorno dos Titãs.
Dessa forma nos alienamos cada vez mais enredados em meio a imagens fragmentadas e distorcidas, que apenas espelham e reproduzem o mesmo. Através delas o homem consome sua felicidade e um dia percebe que a exterminou ou nunca existiu, porque os valores que trazem o sentido para a vida não são compráveis e sim conquistados com amor, suor e lágrimas e estão no interior e não no exterior. O lugar no espaço não são as conquistas materiais e estéticas, mas sim o olhar para dentro de si mesmo, um inclinar-se a si na busca pelo Self e suas imagens, nos fazendo pensar na importância do retorno da imagem de Deus nesse caos social, nosso Deus interior que quer se comunicar com esse globalcyber para que a evolução social se faça.
A evolução da ciência é fundamental, mas a evolução social, humana, precisa caminhar junto. O que se vive hoje é uma desigualdade onde as máquinas crescem mais e ocupam mais espaço e destaque do que o crescimento e evolução humanos. Mas o crescimento só é possível, segundo Jung (2008), quando o indivíduo consegue conscientizar essa psique coletiva imersa na máscara da persona e sair desse mundo de inconsciência coletiva olhando para sua interioridade, sua psique individual, o Self que Edinger prefere chamar de si-mesmo. Essa saída da inconsciência coletiva poderá ocorrer se os indivíduos proporcionarem espaço para a função psíquica Deus, onde coletivo e individual possam entrar em entendimento. Assim, o melhor espaço e maior propiciador desse inclinar-se a si mesmo, às suas questões interiores ou exteriores, é o setting terapêutico que proporciona a terapia, onde há uma via de saída do espaço globalcyber e entrada no espaço terapêutico para proporcionar um olhar para o Self organizador.
Observando os séculos passados, vimos sociedades totalmente patriarcalistas, onde o pai era a lei maior como dirigente das famílias da época que agiam norteadas por essa imagem de maneira bem concreta, ou seja, o pai da família, o patriarca com autoridade total pelos demais, onde somente lhes restava obedecer. Depreendemos então, que passamos de um extremo ao outro, vivendo na atualidade em uma sociedade totalmente sem pai, sem lei, sem logos, sem essa força reguladora, o que fez com que a totalidade titânica tomasse conta e o que se acaba vivendo é uma posição em que o indivíduo se coloca como igual a Deus, segundo Jung (2008).
Dessa forma, retomando em Jung (2003) a questão da imagem do pai e dos arquétipos, compreendemos que o inconsciente coletivo é o local onde estamos em ligação com o mundo através de imagens, ele é uma camada muito profunda de nosso inconsciente, a camada mais arcaica e de natureza universal, sendo de diversas formas em todos os indivíduos e que representam um conteúdo inconsciente. Em Jung (2008), o inconsciente coletivo é como a imagem que espelha o mundo.
Ainda segundo Jung (2003), os arquétipos são os conteúdos encontrados no inconsciente coletivo, imagens que fazem parte do universo e que existem desde tempos remotos. São formas determinadas na psique e por fazerem parte do inconsciente coletivo podem ser imagens inconscientes dos próprios instintos e aparecem em sonhos, na imaginação ativa e em delírios de psicóticos, pois esses estão imersos no inconsciente coletivo devido a sua patologia.
Com isso, podemos nos remeter ao relato do físico Capra (2005) que traz sua experiência à beira da praia onde teve uma expansão de consciência e viu cascatas de energia cósmica que vinham do espaço em ritmo como num bailado, nos fazendo pensar então nessas como imagens inconscientes e coletivas, que apresentadas a ele, proporcionaram-no estabelecer uma conexão e sentido próprios. Essas são imagens que podemos chamar de arquetípicas universais que um inconsciente pessoal assimilou e deu sentido. Assim, podemos pensar então, nos arquétipos como organizadores da psique desde o início da criação.
A SAÍDA DO INCONSCIENTE COLETIVO E O ENCONTRO COM O ARQUÉTIPO DO PAI
Cada indivíduo imerso nesse social entra em contato com imagens de Self que podem lhe fazer sentido ou não. Quando na correria desenfreada da vida, provavelmente nada virá a tocá-lo, mas se por algum momento o silêncio, a meditação, a terapia forem incorporados em seu dia-a-dia, as coisas tornam-se mais favoráveis. Mesmo que se viva nessa imersão social inconsciente por muito tempo, esse tempo não é eterno, pois o ser humano traz em si algo que impulsiona ao crescimento, algo que pede pela consciência de si-mesmo. Como nos diz Edinger (1996) a criação da consciência é o objetivo dos seres humanos; sendo assim, vivendo o confronto diário no globalcyber, começamos nossa caminhada com a separação desse estágio arcaico de desenvolvimento.
Essa caminhada inicia quando o ser humano consegue render-se ao seu limite, ao sentimento de que por si só não consegue crescer e progredir, que somos pequenos e algo maior do que nós nos leva e traz a dualidade do mundo, a dúvida e o outro em nós; o que nos remete a Jung (2009) quando diz que é preciso que o ser humano perceba que nem ele mesmo se suporta mais e então vai em busca do que o suporta. Esses sentimentos e percepções poderão vir junto de várias imagens, mas para nosso estudo ficaremos com a Trindade Cristã.
A Trindade Cristã é bastante arcaica e veio sendo representada desde a Babilônia até a era cristã. No Egito, por exemplo, tínhamos o deus Ka-mutef que seria a unidade pai e filho segundo Jung (2008). Esse é um conteúdo arquetípico inconsciente que permanece através dos tempos chegando a nossa atualidade como o dogma da Trindade.
No dogma da Trindade nós temos o Pai, o Filho e o Espírito Santo. O Pai gera o Filho e os dois dão origem ao Espírito Santo. Ao retomarmos o deus Ka (espírito de vida) que nos traz Jung (2008), depreendemos que no Espírito Santo temos o espírito de vida, sendo assim a Trindade passa a ser pai- filho- vida. O que nos afigura aqui é a ausência da mãe e nos leva a sociedade antiga onde o que tínhamos era o patriarcalismo. O mundo do pai como o cômodo mundo da totalidade, harmônico, sintônico, protegido, de ordem imutável onde o pai era a lei; normas, valores, todo tipo de ética, eram sempre totalmente respeitados e acatados no social. Em nossa sociedade atual essa lei organizadora virou esse globalcyber repleto de enormidades dando lugar ao caos, onde se faz necessário retomar a lei dentro de cada indivíduo.
Mas nesse globalcyber sem limites, sem logos, há um momento em que o movimento é questionar essas forças sociais que ditam o certo e o errado, o que se deve fazer e o que não se deve; a causa e origem do bem e do mal, que por si só são dualidades presentes no social e contidas na psique coletiva do indivíduo. Essa vivência dos opostos, segundo Jung (2009), é necessária para que se experiencie o Self e para que se acesse interiormente o sagrado. É preciso que essa contradição venha a serviço do desenvolvimento da psique pessoal; colocar a dúvida e a dualidade acima do que é pré-estabelecido e dar espaço para o Outro que nos fala interiormente. Assim podemos refletir sobre a citação de Jung transcrita abaixo:
Ansiava por retornar ao reino do Pai, mas este reino se havia perdido definitivamente, pois houvera um aumento de autonomia irreversível da consciência humana. Através desta mudança, o homem se desliga do mundo do pai e começa o mundo do Filho, com o drama divino da salvação e com a narrativa cultural daquelas coisas que o Homem-Deus realizou em sua permanência nesse mundo. A vida do Homem-Deus revela, então, coisas que não se podem conhecer mediante o Pai, enquanto uno. Com efeito, o Pai, em seu estado original, de uno, não era uma realidade determinada nem determinável, nem podia ser ou chamar-se “Pai”, no verdadeiro sentido do termo. Mas por sua encarnação no Filho torna-se Pai e, concomitantemente, determinado e determinável. Tornando-se Pai e Homem, revela o mistério de sua divindade na esfera do humano. (Jung 2008, pag. 24).
Então o que temos é o momento em que o homem questiona seu sofrimento, o lugar que se encontra; a angústia e ansiedade por retornar ao aconchego ao lado do Pai que protege e não promove a mudança. O ego é soberano e não tem limite no globalcyber, mas o Self continua impulsionando para a individuação e a dualidade proporciona o crescimento. Olhando para o mito Cristão, esse mito ocidental fundamental ao ser humano, temos que Jesus acolheu pecadores, ladrões, prostitutas; ele aceitou o que havia de mais verdadeiro em cada um.
Jesus, o Homem-Deus, conseguiu viver seu processo de individuação segundo seu Self o encaminhou, aceitando e vivendo internamente seu bem e seu mal e tudo aquilo a que fora impulsionado a enfrentar e vivenciar até sua morte. Assim temos no Self de cada indivíduo um impulso que leva para o bem e o mal, para a sombra que nos habita, que são os conteúdos que acabamos por colocar num lugar bem inconsciente em nossa psique e que podem nos trazer lembranças ruins, nossos defeitos, nossas qualidades, tudo que não conseguimos olhar de frente.
Nessa citação Jung nos remete a Jesus e a seu drama divino sendo crucificado na cruz. Essa é a imagem do sacrifício divino que está arraigada na cultura Ocidental e que Jung tanto valorizou para compreender a psique individual. O então sacrifício pensado na atualidade, sendo vivido como um sacro-ofício, o trabalho interno de se sacrificar um estado psíquico cômodo e de aconchego para alcançar outro estado de amadurecimento e individuação.
Para tanto é preciso que cada um se conecte com o que há de verdadeiro em si e dê espaço para esse outro que fala no interior. É como o estar vivendo imerso no globalcyber na busca desenfreada por experienciar tudo que se vê pela frente, adquirir tudo que seu desejo ordena e de repente perceber que essa era materialista e globalizada não remete a um sentido e significado próprios, ou seja, não dá lugar para o Self se comunicar através de suas imagens integradoras de sentido. Ou ainda, se deparar com uma situação avassaladora da qual não se tem domínio nenhum e que lhe deixa sem chão, remetendo então o olhar para sua pequenez e necessidade de interiorização e reflexão. Como nos diz Jaffe (1992), o que o indivíduo precisa está dentro de si e não fora, nos bens de consumo e instituições diversas.
Esse momento reflexivo e sentido com alma deverá ser norteador para o indivíduo e poderá vir a ser como um ritual de morte e renascimento. O indivíduo entra em contato com o que há de bem e mal em seu interior, consegue olhar para sua sombra e lhe dá o sentido necessário para o seu processo, ou seja, toma consciência e se apropria de qualquer um dos lados da oposição ou ambos, tendo responsabilidade pelo que conhece. Assim o indivíduo olha para a sua verdade seja qual for, mas que seu Self está impulsionando e não vive meramente o que o coletivo impulsiona.
Nesses exemplos o mundo do Filho é vivido porque o indivíduo se separa da imersão no globalcyber, um sentido é dado para a sua vida, o seu sacrifício individual é vivido e o arquétipo paterno integrado. Assim sendo, cabe a nós ao vivermos nosso mito sacrificial, acolhermos o que há de pior em nós, dar um espaço e uma escuta para essas partes a fim de crescermos no processo de individuação.  
Isso significa que, segundo Jaffe (1992), o indivíduo precisa se sentir crucificado devido às dificuldades em viver determinadas situações na vida, nossas imperfeições nos sacrificam e mostram nossos limites. Ao nos desidentificarmos com nosso ego, vamos percebendo que temos limites e damos espaço para o Self. Assim, vivemos simbolicamente o mito cristão como o arquétipo paterno retratado na Trindade Cristã, que realiza sua função psíquica e retira o indivíduo de sua inconsciência imersa no coletivo e traz para a vivência do dogma interior, o seu dogma em seu interior. O indivíduo vive seu sacrifício pessoal e se torna dois, Pai e Filho, ao mesmo tempo em que foi filho pode ser o homem-pai.
Da vida do Pai e do Filho e entre o Um e o Outro surge o Espírito Santo, entre o ego e o outro encarna o Espírito Santo. Segundo Jaffe (1992) referindo Jung, é competência do Espírito Santo reconciliar as dualidades humanas. Assim, se reconstitui a unidade em um estado maior de consciência e de reflexão para a humanidade ao qual não mais se pode retroceder. Nessa unidade temos uma representação de Deus, de um Deus interno de função psíquica transcendente propulsionando para a individuação constante, unindo consciente e inconsciente na busca pelo Self, essa a divindade no humano, ou seja, a encarnação de Deus.
Nesse processo temos a tomada de consciência, e que conforme nos traz Edinger (1996), com a consciência temos o conhecimento, o “conhecer com” e o “estar com”, ou seja, quando vivemos as experiências de dualidade como já citado nessa reflexão, o conflito interno traz uma satisfação e crescimento onde o indivíduo toma consciência de determinadas situações até então inconscientes. Esses conteúdos com que o ego se depara e fazem oposição, são chamados de o outro em nós, pois a oposição vem para destronar o ego que acaba por se sentir derrotado e incapaz e o outro que emerge, dá espaço para o Self proporcionando o processo de individuação.
Esse outro que emerge em nós será tanto a sombra como o Self, pois nos deparamos constantemente com ambos. Assim, temos o “conhecer com” esse outro (Self ou sombra) e consequentemente o “estar com” esse outro interno o que nos remete a vida de relação, ao Eros. Nesse processo de aquisição de consciência, vivemos um sentido de coniunctio unindo Logos e Eros, como diz Edinger (1996); e ainda, segundo ele, é a religião que liga e vincula o indivíduo e Deus como a imagem de Self.
Para a ciência há o ato de constante conhecer entre sujeito e objeto. Nesse caso ego e Self estão em constante comunicação e maior conhecimento a cada momento do processo de diferenciação entre ambos. A ciência desde há muito tempo rompeu com a religiosidade em uma antiga oposição e o que se resgata no novo paradigma é a possibilidade de vincularmos ambos os conhecimentos para futuros entendimentos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS NEM TÃO FINALISTAS
Viver na imersão do social faz parte do desenvolvimento humano, as sociedades evoluem e se modificam por si só através dos tempos. Mas compete a cada indivíduo que nasce imerso nessa totalidade, encontrar o caminho que o levará a sair desse estágio arcaico de desenvolvimento, sair do globalcyber e buscar pela consciência de si.
Talvez esse imenso globalcyber esteja aqui, sobrevivendo persistentemente na atualidade, por nós seres humanos não estarmos olhando para o mundo como um mundo almado. Pois, qualquer cidade que se constrói, possui uma história, uma estrutura fundamental, ramificações como escola, teatro, hospital etc. assim como cada indivíduo possui a sua história, a sua estrutura psíquica e as suas ramificações familiares e rede social. É necessário olharmos para a alma do mundo para assim podermos dar um sentido e um lugar subjetivo para ele, quem sabe dessa forma tenhamos um mundo mais humano ao colocarmos alma no globalcyber.
O Self impulsiona para a saída desse mundo globalcyber e para que essa caminhada seja resolutiva é importante o trabalho do profissional psicólogo Junguiano, com a finalidade que o mesmo possa auxiliar na comunicação entre o eixo ego/Self. Esse, como um dos caminhos possíveis, virá ao encontro das diversas imagens que sempre propiciarão o contato com a sombra persistente que nos habita.
Na clínica temos perguntas importantes a fazer com o relato de pacientes: o que é cada coisa que nos trazem, de que modo se apresentam, existem e refletem?
Nessa reflexão, o que exemplificamos foi a imagem de Deus como o arquétipo paterno, muito importante como integradora da psique por estar arraigada em nossa cultura. Sejamos religiosos ou não, o que importa é a função organizadora que essa imagem traz.
É fundamental enfatizar a atitude religiosa perante a vida e numa certa ligação com as imagens arquetípicas universais como Deus, Jesus, Virgem Maria, etc. das quais a igreja se apropriou e dogmatizou. O que importa não é o idolatrar, venerar, mas sim interiorizar, sentir, se comunicar com a história que cada imagem revela e que muitas vezes nosso Self nos apresenta e trazer para nossa própria vida.
Nesse interiorizar estão o olhar-se a si mesmo, a sua história, a sua postura, as suas verdades ou mentiras e se apropriar do que é seu para que possa então se diferenciar dos outros, deixando que seu outro interno fale, se responsabilizando por aquilo que realmente é. Esse o crescimento que proporciona a individuação e que nós psicólogos Junguianos temos o dever de auxiliar.
É importante que a clínica volte o olhar para o indivíduo em sua totalidade, ou seja, o paciente é não apenas o que vive, mas também o que come, o que sente, a sua casa, o seu hobby, o seu emprego etc. tudo possui uma alma que anima.
Dessa forma, a clínica precisa olhar não apenas a alma do paciente, mas a alma do mundo que ele traz para o setting terapêutico e a alma do setting que vai com ele para o mundo. É fundamental que o psicólogo na clínica, olhe para o mundo lá fora e veja a alma do mundo como terapêutica; a terapia precisa estar junto dela, o mundo entrar no setting e o setting ir para o mundo. Tudo é processo e processo é vida.
Sentir a vida e o mundo almados juntamente com a atitude religiosa vivendo o processo do seu sacrifício individual, são possibilidades para que a individuação constante se faça e o Espírito Santo encarne, nos colocando num maior estágio de consciência de nós mesmos e da vida que nos cerca.
A ciência precisa estar cada vez mais voltada para o trabalho com o conhecimento vinculado, unir razão e amor/sentimento e é isso que Jung nos trouxe, uma atitude religiosa proporcionando a ligação com a psique sempre tão estudada cientificamente por ele.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAPRA, Fritjof. O tao da física. 29ª ed. São Paulo: Cultrix, 2005.
EDINGER, Edward F. A criação da consciência: O mito de Jung para o homem moderno. 9ª ed. São Paulo: Cultrix, 1996.
HILLMAN, James. Cidade e alma. São Paulo: Estúdio Nobel. 1993.
JAFFE, Lawrence W. A alma celebra: preparação para a nova religião. São Paulo: Paulus, 2002.
JAFFE, Lawrence W. Libertando o coração: Espiritualidade e psicologia Junguiana. 9ª ed. São Paulo: Cultrix, 1992.
JUNG, Carl G. Interpretação psicológica do dogma da trindade. 7ª ed. Petrópolis: Vozes, 2008.
____________. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 4ª ed. Petrópolis: Vozes, 2000.
____________. O eu e o inconsciente coletivo. 21ª ed. Petrópolis: Vozes, 2008.
____________. Psicologia e alquimia. 4ª ed. Petrópolis: Vozes, 2009.


 
 
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