|
|
|
|
 |
| |
| Artigos |
| |
| Um olhar para loki: o instigante deus nórdico |
|
|
Este artigo apresenta eventos importantes associados ao mito nórdico do deus Loki e estabelece um paralelo com o referencial da psicologia junguiana. Tendo em vista que mitos são expressões do inconsciente coletivo e, por consequência, são passíveis de reativação na psique individual, procuramos abordar o caráter simbólico desses eventos, traduzidos na transformação e renovação psíquicas. Serão observados dois mitos que giram em torno de Loki: a Fabricação dos Tesouros e a Morte de Balder. Este último será explorado em maior detalhe, graças à significância e riqueza simbólica apresentadas ao longo do seu desenvolvimento. Nele, Loki representa o desejo irascível de transformação, a dissolução do status quo, mesmo que isso resulte na ira dos deuses. Com base nas ações de Loki, é apresentada uma reflexão sobre o processo de assimilação de conteúdos sombrios e sobre a dialética da psique na função transcendente, remetendo também a aspectos do daimon e de sua atuação na vida psíquica. INTRODUÇÃO Graças à pluralidade de características e dinâmicas que envolvem suas deidades e demais personagens, a mitologia nórdica se revela um campo fértil para o fomento de associações entre as histórias perpetuadas pelos povos escandinavos e teutônicos e o referencial da psicologia junguiana. Porém, sua relegação a um segundo plano perante o conhecimento mais disseminado de outras mitologias, como a grega e a romana, gera a necessidade de um estudo mais aprofundado acerca dos mitos nórdicos. Mitos são histórias simbólicas que nos colocam em contato com as imagens arquetípicas, personagens da alma de cada um. Ao trazer uma nova compreensão e reavaliação das imagens míticas, Carl Jung ofereceu uma grande contribuição com seu trabalho, constatando que elas não se tratam de crenças perdidas do passado, mas de símbolos eternos que continuam sendo importantes e presentes na mente contemporânea. Para Jung (2000a), os mitos manifestam a essência da alma, que fala através de imagens. Dessa forma, o deus Loki surge como um dos personagens que habitam a nossa alma, apontando para a dinâmica que se estabelece entre todas essas figuras do nosso interior povoado, como é chamado por Stein (2006). Loki se mostra um personagem extremamente interessante e enigmático que, com sua ambiguidade e irreverência, nos instiga, promovendo a relação com aspectos inconscientes. Tomando como base a figura do deus Loki e suas ações nos mitos nórdicos, particularmente no episódio da morte de Balder, o presente artigo realiza uma reflexão sobre o diálogo entre consciente/inconsciente, a integração de conteúdos inconscientes e a função transcendente. CONVERSANDO COM LOKI Loki é uma das figuras centrais que veremos dentro do mito nórdico, juntamente com Odin e Balder. Ele é um deus (Æsir), apesar de ser, contraditoriamente, da raça dos gigantes (Jötunn). Por muitas vezes lembrado apenas por seu lado sombrio e destrutivo, era companheiro constante dos demais deuses nórdicos, e suas ações merecem uma reflexão. Loki é o trapaceiro, o ladrão, o criador de problemas que engana os deuses a troco de nada; é a desgraça de todos os deuses e homens, e participa ativamente do Ragnarök (nome dado à destruição do mundo), também chamado de Crepúsculo dos Deuses. Além disso, é bonito, irresistível (diriam várias deusas), tem aparência agradável, comportamento caprichoso e habilidade de transmutar-se em outros seres. Loki é companheiro dos deuses em várias aventuras e irmão por pacto de sangue do grande Odin. De acordo com Lothursdottir (2003), no Haustlöng, escrito no século IX pelo poeta Þjóðólfr ór Hvíni, o deus é chamado de Amigo de Thor, Amigo de Odin e Amigo de Hoegni. Palacios (2007) considera que a atração de Loki reside em sua dualidade e que, apesar de ser uma figura essencialmente vil, também é extremamente cativante, pois vive em constante chacota, praguejando, pregando peças, ridicularizando e, mesmo assim, sempre sai vitorioso; ele é o “professor da ambiguidade” (p. 147). Suas más ações são incontáveis, reveladoras de sua esperteza, senso de humor e maldade, tornando-o uma figura muito interessante, curiosamente imperfeito e humano. Loki é também conhecido como o deus associado ao elemento fogo, apesar de aparecer nos mitos transitando em diversos elementos. Lothursdottir (2003) relata que, na Islândia, o nome de Loki pode ser encontrado em vários provérbios, expressões e ditos populares, dentre eles, podemos citar “lokabrenna”, expressão que define os dias mais quentes do verão. Outra expressão usada é “Loki caminha com seus bodes”, empregada para fazer referência aos vapores que sobem do solo nos dias quentes. “Loka spoenir” são pedras para fazer fogo. Loki é o fogo transformador, que promove movimento. Na Edda em prosa, obra islandesa escrita por Sturluson (1995) no século XIII e uma das principais fontes do entendimento da mitologia nórdica, há um trecho que se refere à “linguagem da poesia” no qual são citados vários nomes: as kenningar . Bragi, o deus da poesia, então pergunta: “como se referir a Loki?”, e alguns dos kenningar citados são: pai de Fenrir, de Jörmungandr e de Hel; irmão, companheiro e parceiro de Odin e dos Æsir; ladrão dos gigantes, do Brisingamen e das maçãs de Idunn; parente de Sleipnir; inimigo dos deuses; criador de encrenca; o Ás esperto; trickster e acusador dos deuses; causador da morte de Balder. Para nos aproximarmos da imagem de Loki e do que ele simboliza, foram escolhidas duas histórias relatadas na Edda em prosa (Sturluson, 1995): a Fabricação dos Tesouros e a Morte de Balder. Muitas vezes, uma ação aparentemente perversa e despropositada de Loki acaba trazendo grande benefício aos deuses. O MITO DA FABRICAÇÃO DOS TESOUROS No mito da Fabricação dos Tesouros, Loki teve vontade de cortar os belos cabelos da deusa Sif, esposa de Thor, e assim o fez. Para aplacar a fúria do deus, comprometeu-se a resolver o problema e, para isso, procurou os anões, que eram os mais habilidosos artesãos. No final, os anões fizeram não somente novos cabelos naturais para Sif, como também uma poderosa lança e um navio, que viriam a ser de Odin e Freyr, respectivamente. Provocativo, Loki desafiou outros anões a fazerem tesouros tão valiosos quanto os primeiros e, assim que o desafio foi aceito, transformou-se em uma mosca, perturbando e colocando em risco o trabalho dos anões. Apesar disso, eles conseguiram forjar magníficos tesouros: um javali dourado, um anel que se multiplicava e o martelo de Thor, inestimável arma na luta contra os gigantes. Para que essa segunda leva de tesouros (segundo os deuses, a melhor) fosse produzida, Loki, além de perturbar os anões, colocou em jogo sua própria cabeça. No final, como sempre, utilizou sua esperteza para escapar, dizendo aos anões que, como haviam superado o desafio, poderiam arrancar sua cabeça, desde que o pescoço ficasse intacto, pois este não estava incluído na aposta. Esse mesmo padrão aparece em diversas outras histórias, em que a ação provocativa de Loki cruza o caminho e incita a criatividade, permitindo que tesouros tomem forma e possam se expressar. O surgimento, por exemplo, do Loki-mosca cria condições para o inesperado acontecer. Hillman (1988) relaciona esse aspecto perturbador aos insetos que, incomodando e distraindo, trazem consigo uma dimensão ao mesmo tempo animal e divina, ativando elementos localizados além da esfera do ego. Olhando para Odin, percebemos também no deus um aspecto ligado ao mundo dos mortos. Odin era o deus da guerra, senhor das hostes e também o psicopompo, capaz de estabelecer o elo entre o submundo dos mortos e o mundo dos vivos. Seu cavalo, Sleipnir, era filho de Loki e possuía oito patas. Para Davidson (2004), Sleipnir pode ser visto como um animal típico do xamã, cuja imagem pode ter sido derivada de imagens de quatro pessoas carregando um ataúde em um funeral. A descrição coincide com a capacidade de Sleipnir de transportar seu cavaleiro à terra dos mortos. Odin era também o deus da magia e da sapiência, que sacrificou um olho para beber da fonte da sabedoria. Ficou dependurado na árvore do mundo por nove dias e noites, com o objetivo de mergulhar nele mesmo, exercitando a entrega. Mediante esse sacrifício, adquiriu o conhecimento da magia das runas. Examinemos agora o episódio da Morte de Balder, o segundo filho de Odin, em que a participação de Loki foi decisiva. O MITO DA MORTE DE BALDER Certo dia, Balder, o deus mais belo e amado por todos os deuses, teve um sonho sobre sua morte. Como sua mãe, Frigga, teve o mesmo sonho, ficaram preocupados e ela colheu um juramento de cada ser vivo, tanto plantas quanto animais, de que jamais faria mal a Balder. Porém, ela ignorou uma pequena planta, o visco, por considerá-la inofensiva. Loki se disfarçou, descobriu a falha e elaborou um plano para matar Balder. Durante os jogos, em que os deuses brincavam de atirar coisas em Balder, Loki sugeriu que o deus cego, Höeder, atirasse algo específico no filho de Odin, entregou-lhe, então, um dardo de visco e se ofereceu para ajudar na mira, conseguindo, assim, matar Balder. Posteriormente, Odin pediu ao seu outro filho, Hermod, que cavalgasse em Sleipnir até o reino dos mortos (Hel) para conseguir um acordo para a volta de Balder. Hel permitiria a volta do deus desde que todas as criaturas, sem exceção, lamentassem e chorassem por ele. De fato, todos lamentaram e choraram por Balder, exceto uma giganta chamada Thok, que se encontrava em uma caverna e desejava a permanência de Balder no reino dos mortos. Essa giganta era Loki disfarçado, que, dessa forma, teve sucesso em manter o deus onde estava. Diz-se que tal acontecimento dá início ao Ragnarök, a sequência de eventos que culmina com a destruição dos deuses e do mundo como era conhecido. Quando os deuses descobriram toda a trama, Loki se refugiou em uma montanha, onde construiu uma casa com portas voltadas para os quatro principais pontos cardeais, para ter visibilidade em qualquer direção e poder ver a aproximação dos deuses. Às vezes, ele se transformava em um salmão e nadava na cachoeira próxima à casa. Outras vezes, trabalhava no que se tornou a invenção da primeira rede de pesca. Certo dia, Odin o descobriu e, com a rede, capturou-o: sua invenção acabou sendo sua armadilha. Loki ficou acorrentado em uma caverna até o início do Ragnarök, quando se libertou e lutou com as forças do mal contra os deuses. Loki é pai de três seres (Hel, Jörmungandr e Fenrir) que têm papel importante na (des)estruturação do mundo. O deus Odin deu a Hel, que é tanto a personificação feminina da morte quanto o lugar dos mortos, o poder no mundo dos mortos, “ir para Hel” equivale a morrer. Ela administrava a chegada dos mortos vindos dos nove mundos, e, para seu reino, iam os que morriam de doença e velhice. Jörmungandr, também chamada de Serpente do Mundo ou Serpente de Midgard, foi colocada por Odin nas profundezas do oceano. A criatura cresceu tanto que circundava toda a terra, mordendo o próprio rabo. Fenrir era um lobo gigantesco que causou grande preocupação aos deuses por causa de seu crescimento rápido. Ele ficou acorrentado até o Ragnarök, quando conseguiu libertar-se e foi o adversário final de Odin. No fim do mundo, Loki convocou todos os seus filhos para participar do Ragnarök. Além da própria senhora dos mortos, dentre os filhos de Loki temos um lobo e uma figura que pode ser vista como um ouroboros. Podemos pensar a serpente do mundo como representação do arquétipo do ouroboros, a serpente que devora a própria cauda. Para Jung (1990, p.117), “o ouroboros é um símbolo drástico para a assimilação e a integração do oposto, isto é, da sua sombra”. Além disso, esse processo circular “é um símbolo da imortalidade, isto é, da renovação constante de si próprio, pois se diz do ouroboros que ele a si mesmo mata, vivifica, fecunda e pare” (JUNG, 1990, p.117). Podemos pensar a serpente do mundo como um aspecto de Loki e Odin, pois alguns de seus aspectos mercuriais, como ligação com o mundo dos mortos, união de opostos e capacidade de transformação, refere-se a ambos os deuses. A serpente pode ser vista como um aspecto a serviço da integração do lado inconsciente. Conta o mito que Odin arremessou a serpente para o fundo do oceano, onde ela teve espaço para crescer e dar a volta ao mundo, tornando-se onipresente, representando o arquétipo do ouroboros como presença psíquica. Ela ressurgiu no fim do mito, juntamente com Loki e os outros monstros, para concluir um trabalho de renovação. Segundo Jung (1990), ao trazer em si a união dos opostos, o ouroboros simboliza a meta do processo, diferente do início do mesmo, em que os elementos lutam entre si e estão misturados de forma confusa e caótica. O ouroboros é como um dragão que gera a si mesmo a partir de si mesmo e é um ser de opostos que, por seu aspecto sombrio, era objeto de estudo dos alquimistas (JUNG, 1990). Com base nisso, podemos pensar Jörmungandr, a serpente, como imagem da meta alquímica representada no mito, levantando-se no fim dos tempos para combater contra os deuses. Refletindo sobre um sentido do ciclo do ouroboros, de circularidade, ele morre, mas se renova, reconstitui-se, permanece como um símbolo vivo. A partir disso, podemos imaginar o mito não no sentido de uma simples destruição e renascimento de um novo mundo sem o mal, mas de um mundo dentro de uma nova perspectiva, simbolizando o surgimento de uma nova consciência, conectada com o reino das sombras. Odin, em face às forças destrutivas representadas pelos filhos de Loki, não teve outra escolha senão conceder um lugar a cada um, colocando a serpente no fundo do mar, acorrentando o lobo e concedendo um domínio para o governo de Hel. Isso equivale a um ato de reconhecimento e respeito a essas forças arquetípicas, semelhante ao ato de Atena no julgamento de Orestes, quando esta ofereceu um templo às Erínias para que fossem vistas e lembradas, e, assim, apaziguou-as. Odin estava ciente das forças poderosas que preservava e nada podia fazer senão as reconhecer como dignas de respeito, reverência, como portadoras de certa sacralidade. Os deuses sabiam de sua queda, mas nem mesmo Odin podia interferir no que era ditado pelas Nornas, as deusas nórdicas do destino. Criar um espaço é o mesmo que definir limites seguros. A atitude de colocar os monstros em um território sagrado equivale a reconhecer essa força arquetípica, delimitando-a, possibilitando, assim, um apaziguamento e criando condições para que a vida continue. A eliminação dos monstros não seria sinônimo de vida, mas de morte, uma não-vida sem movimento e estagnada. Toda essa história é repleta de pares de opostos: Loki/Odin, Loki/Balder, Loki/Heimdall, sinalizando a relação de complementaridade contida nos pares de opostos, necessária à vida psíquica. Heimdall (Hviti áss, o “deus inocente”, o “deus branco”), inimigo de Loki, conseguiu matá-lo, porém, também não sobreviveu. Lothursdottir (2003) e Palacios (2007) apresentam uma interessante análise da figura de Loki, apontando para a ideia de que a luz não pode existir sem a escuridão. A questão crucial não é a vitória de um lado sobre o outro, o importante é justamente a relação, esse dinamismo que sustenta a própria vida. Em termos da psicologia profunda, é o mesmo que dizer que o processo de individuação só ocorre com a integração dos aspectos inconscientes da personalidade pelo consciente, com o reconhecimento de aspectos obscuros, às vezes terríveis e ameaçadores ao ego. Uma coisa não acontece sem a outra e sem o relacionamento entre essas duas instâncias. Hillman (1984), ao falar da sombra, diz não ser nela que cresce a força do demônio, mas em nossa luz, quando esquecemos a própria escuridão e ignoramos nossa destrutividade. Para o autor, ter sombra e estar nela é humano, porém, o ser humano não projeta sua sombra ao meio-dia, que é também a hora de Pan. E, justamente nesse momento radiante, “em nosso ponto mais alto, nos encontramos próximos do perigo da maior de todas as quedas” (HILLMAN, 1984, p. 96). Balder estava no seu meio-dia, sem visibilidade da própria sombra. Jung (2008a), ao falar das projeções de conteúdos da sombra, o lado obscuro da personalidade, relata que essas projeções não reconhecidas colocam o indivíduo em uma situação de isolamento do mundo exterior, pois a relação que se estabelece com esse mundo é ilusória. Novamente, vemos a necessidade de reconhecer e dar espaço a esses conteúdos. Retomando o início do mito, percebemos que Loki somente participou da trama que vai culminar em sua queda e ida pra Hel no momento em que os deuses tentam tornar Balder, o amado por todas as criaturas da terra, sem exceção, invulnerável. Balder teve um sonho, seria isso um chamado do próprio mundo das trevas, das terras sombrias que não eram visitadas naquele momento de plenitude? Ficamos com a impressão de que algo tinha de morrer, entrar em putrefação. John Sanford (1988) constatou que esse tipo de situação nos mitos nos apresenta uma questão psicológica importante: não podemos pretender sermos os melhores, os mais puros e plenos de bondade, deixando de lado o mundo das trevas, nosso eu sombrio e os aspectos inconscientes da personalidade. Ao mesmo tempo, Balder parecia ainda ter uma forte ligação com o mundo materno, algo como uma identidade não muito diferenciada, que precisava se transformar. Quando Frigga tenta protegê-lo de todas as influências indesejáveis, é justamente esse o momento em que Loki, o lado inconsciente negligenciado, consegue forças para fazer valer seu ponto de vista. Por isso, podemos pensar que o sonho de Balder pode muito bem sinalizar a necessidade de uma morte simbólica, e não necessariamente literal, para preparar a transformação de determinada atitude unilateral, a incorporação de certos complexos inconscientes. O sonho seria uma apresentação do inconsciente, mostrando toda a situação psíquica do momento e, ao mesmo tempo, oferecendo uma saída. LOKI: UM ABORRECIMENTO NECESSÁRIO Völuspá é o nome do primeiro poema da Edda Poética. Odin ressuscita uma vidente, que lhe conta sobre o início e o fim do mundo. Dessa forma, Odin soube do destino dos deuses e do que aconteceria com seu filho Balder, que morreria e retornaria. Mas, naturalmente, para retornar, ele primeiro tinha de morrer. Quem seria o personagem mais adequado para esse papel senão Loki, que movimenta a roda? Nesse ponto, podemos fazer outra pergunta: por que motivo Loki insistiu em garantir que Balder ficasse em Hel? Sabe-se que, após o Ragnarök, o deus Balder voltou de Hel, em uma espécie de renascimento. Podemos imaginar que Loki o deixou lá porque era necessária essa sua imersão naquele mundo sombrio durante todo o tempo. Antes disso, ele viveu quase totalmente na luz, era o deus solar, exaltado e perfeito, não tinha conhecimento do mal e do domínio não iluminado pela luz da consciência. Como Balder poderia se relacionar com todas essas figuras sombreadas e ignoradas por ele? Ao que parece, Loki se certificou de que ele tivesse tempo para descobrir. Podemos relacionar esse movimento de descida de Balder ao submundo com o movimento de introversão da libido, que, por muitas vezes, necessita se introverter, ser direcionada para o mundo interior. Por exemplo, em um episódio de depressão, a libido precisa desse período de introversão, dessa fase reflexiva que pode trazer uma nova perspectiva para o ego e fazer consciência. Hillman (1992) fala de maneira muito bela sobre essa dimensão de profundidade que pode ser alcançada quando as pessoas se permitem tal depressão, encontrando um significado e ouvindo a voz da alma. Segundo o autor, é nas profundezas, no submundo, que podemos encontrar a alma. Após a destruição do mundo, o deus Balder renasceu. Pensamos que, após atingida uma meta de integração, simbolizada também pelo ouroboros, o deus pôde retornar ao mundo de cima. De acordo com Davidson (2004), inicialmente, Balder poderia ter sido visto não como um deus, mas como um herói nórdico, um guerreiro que era filho de Odin no sentido espiritual, ou seja, de ter sua proteção. Se estabelecermos uma relação com o complexo egóico, que é regido pelo arquétipo do herói, podemos ver todo o drama da morte e renascimento de Balder como um rito de passagem, do qual ele volta mais diferenciado. O Ragnarök e a morte/retorno de Balder, de uma forma geral, podem ser vistos como símbolos de um processo psíquico contínuo de transformação da consciência e como assimilação de complexos e aspectos sombrios da personalidade. Balder morreu e voltou de Hel, ressurgindo em uma nova forma. Isso representa as fases que ocorrem durante o processo de individuação e que podem ser observadas e trabalhadas em psicoterapia. Para Jung (2000a), esse reajustamento da atitude psicológica é o que ocorre durante a psicoterapia. Isso vai ao encontro da visão de Lothursdottir (2003), que vê Loki mais como um quebrador de paradigmas, como aquele que provoca a saída da estase, gerando o movimento de várias coisas no mundo. Apesar de levar os Æsir a situações perigosas, muitas vezes, ele mesmo os tira dessas situações. Além disso, por diversas vezes os deuses saem das situações em uma condição melhor do que a anterior, como no caso da primeira história citada, da fabricação dos tesouros pelos anões. Percebemos que Loki desempenha esse papel de desestabilizador, participando de banquetes sem ser convidado e ainda se achando no direito de acusar e apontar as falhas alheias. Isso pode ser visto na história da Lokasenna, relatada na Edda Poética, mais antiga fonte de poemas nórdicos. Nessa história, Loki, por causa de seu comportamento agressivo e desafiador, é expulso de um banquete em que estavam reunidos os deuses. Em seguida, ele acaba retornando e, furiosamente, passa a debochar e apontar as falhas de cada um, causando grande constrangimento aos presentes, pois tudo o que diz é verdade. Loki apresenta algumas semelhanças com o arquétipo do trickster. Uma caracterização do que é um trickster pode ser vista no seguinte trecho: Uma estranha combinação de motivos "tricksterianos" típicos encontra-se na figura alquímica de Mercúrio; por exemplo, sua tendência às travessuras astutas, em parte divertidas, em parte malignas (veneno!), sua mutabilidade, sua dupla natureza animal-divina, sua vulnerabilidade a todo tipo de tortura e - last but not least - sua proximidade da figura de um salvador (JUNG, 2000b, p. 251). À primeira vista, Loki não parece ser um salvador, pois é pai de três grandes monstros e lidera as forças destrutivas no confronto final com os deuses. Porém, se analisarmos do ponto de vista da psique, veremos que a salvação reside justamente na possibilidade de renovação, no surgimento de uma nova consciência e na integração desses aspectos sombrios que, em última instância, não podem e não devem ser negligenciados na nossa vida psíquica. LOKI: UM SER DAEMÔNICO Podemos olhar para Loki dentro da visão do que Hillman (2001) chama de daimon, que é a própria imagem da alma e o portador da singularidade de cada um. Já tendo sido denominado de gênio, destino, fado, anjo da guarda, fortuna ou gênio do mal, o daimon vai além disso, e não deve ser confundido com a consciência ou ser visto como um agente moralista. O autor relata, em outro momento, que o daimon ao mesmo tempo protege, motiva, inventa e persiste, estando sempre presente, mesmo que não possamos perceber. Hillman aponta para o mistério do daimon, pois é algo indefinível, cuja natureza permanece obscura e revela-se, principalmente, “em pistas, intuições, sussurros, e nas súbitas premências e estranhezas que perturbam a nossa vida e que continuamos a chamar de sintomas” (HILLMAN, 2001, p. 20). Com seu comportamento estranho e perturbador, Loki desarruma o que aparentemente estava em ordem para depois dar uma nova forma. A obscuridade do daimon é revelada e, ao mesmo tempo, escondida na figura de Loki, uma das mais enigmáticas do mito nórdico. Loki é, portanto, tudo aquilo que nos possibilita o acesso ao daimon. Independente de ser ora amigo, ora inimigo dos deuses, o interessante é que Loki movimenta a roda do mundo e todas suas ações daemônicas se orientam para isso. Todo o movimento provocado por Loki acaba levando a uma nova atitude, que, dentro da visão junguiana, seria a função transcendente. “Na atitude renovada, a libido submersa no inconsciente aparece como trabalho positivo. Equivale a uma reconquista de vida nova” (JUNG, 2008b, p. 244). O retorno de Balder equivale à possibilidade de renovação das atitudes psicológicas. Jung (2000a, p. 4), ao falar sobre esse tema, diz que “a vida tem de ser conquistada sempre e de novo”. A função transcendente resulta de uma relação dialética entre consciente e inconsciente em que o ego tem de colaborar para que o processo ocorra. Vemos, no mito, que Balder aceita seu destino, e, no submundo, aparece ativo e interagindo com Hermod, a quem devolveu Draupnir, o famoso anel de ouro que se multiplicava a cada nove noites. Nesse momento já acontece um processo criativo e interativo. Ao falar da função transcendente, Jung (2000a, p. 5) faz um interessante questionamento sobre o tipo de atitude espiritual e moral que se deve adotar em relação às influências perturbadoras. Podemos imaginar Loki como a personificação dessas influências e nos questionar como reagir a isso. A resposta dada por Jung nos diz que isso não pode ser feito excluindo conteúdos inconscientes, mas sim “reconhecendo sua importância para a compensação da unilateralidade da consciência”. Sobre essas ações daemônicas relacionadas com a transformação, Diamond (2005) diz que o daemônico se torna demoníaco quando tentamos ignorá-lo e excluí-lo da consciência, pois, através disso, fazemos com que o daemônico tenha forças para se reafirmar em suas formas mais negativas. Em contrapartida, quando conseguimos integrar construtivamente o daemônico em nossa psique, participamos do que o autor chama de processo de metamorfose criativa. Para Diamond (2005), a psicoterapia pode ser uma forma de se chegar a um acordo com o daemônico. Na prática clínica, é através da relação com a figura do terapeuta que a função transcendente pode acontecer para o paciente, fazendo-o chegar a uma nova atitude a partir do contato consciente/inconsciente. No dicionário de símbolos de Chevalier (1988), Loki é descrito sumariamente como o mal triunfante, o demônio que vai rir por último quando chegar a escuridão. Podemos perceber que Loki passou a ser visto como demônio com o advento do cristianismo e a queda dos antigos deuses, no entanto, qual seria a mensagem que Loki transmite com essa última risada? Esse acordo com o daemônico envolve algo muito característico de Loki: o humor. Hillman (2005) diz que a atitude indicada ao lidar com nossas partes opressivas e indesejáveis é o reconhecimento delas e o querer transformá-las, porém, ao mesmo tempo, temos de aceitá-las com humor, sabendo que são partes permanentes de nós. Para Sanford (1988), quem dá risada é a sombra, e é dela que provém o nosso senso de humor. Com o riso, a sombra pode ser liberada sem maiores problemas e de uma forma menos explosiva. O humor funciona como uma válvula de escape reguladora desses conteúdos reprimidos ou novos e ameaçadores. O humor é algo que proporciona a interiorização necessária para vermos as coisas de uma perspectiva diferente dentro da mesma situação e entrar em contato com os complexos psíquicos. Assim, podemos relacionar-nos com outros personagens desse vasto interior povoado, dando oportunidade para que outros elementos surjam em cena. Hillman (1999) considera o humor e a humildade como caminhos para se descer ao húmus, à condição humana, e diz que a voz da alma é humorística. Quando deu sua última risada, Loki sabia que o humor também participava do eterno movimento da vida, da destruição e da criação. CONSIDERAÇÕES FINAIS Tendo em sua descendência um ouroboros, Loki simboliza o elemento ativador do processo de transformação, enfatizando a necessidade de movimento e integração psíquicos. No seu desenvolvimento, para que isso acontecesse, Balder tinha de sair da unilateralidade e da literalização em que vivia até então. Quando literalizou o sonho, em vez de tomá-lo simbolicamente, polarizou ainda mais sua atitude, potencializando-a a um extremo em que nenhuma flexibilização parecia viável. Situação assim extremada cria um estiramento, uma tensão tal que leva à ruptura, possibilitando a brecha para a atuação de Loki. Loki nos fala dessa relação com as profundezas, com nossos elementos mais inconscientes e perturbadores, que nada mais são do que expressões das necessidades da alma, manifestações do daimon. Esse diálogo com a psique, em que ela pode ser ouvida e o daimon pode se manifestar, pode iniciar-se com um movimento “lokiano” quando nos vemos diante do inesperado, inusitado e, por vezes, caótico. Percebemos, então, que mesmo os aspectos mais perturbadores da personalidade são oportunidades de conexão com o potencial criativo e transformador da psique. Ao contrário do grito de guerra, que atemoriza, o humor afrouxa os ânimos, relaxa e aproxima. Mesmo no auge da batalha final, no Crepúsculo dos Deuses, Loki se expressa com seu humor característico, criando um espaço psíquico que permite a expressão e a relação com conteúdos, até então na sombra, que, dessa forma, podem ser integrados à consciência.
REFERÊNCIAS CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1988. DAVIDSON, Hilda Ellis. Deuses e mitos do norte da Europa. São Paulo: Madras, 2004. DIAMOND, Stephen. A. A remissão dos nossos diabos e demônios. In: ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah (Orgs.). Ao encontro da sombra. 5. ed. São Paulo: Cultrix, 2005. HILLMAN, James. A cura da sombra. In: ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah (Orgs.). Ao encontro da sombra. 5. ed. São Paulo: Cultrix, 2005. ______. Going Bugs. Spring: A Journal of Archetype and Culture, 1988. ______. O código do ser. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. ______. Picos e vales: a distinção alma/espírito como base para as diferenças entre psicoterapia e disciplina espiritual. In: _____. O livro do puer – ensaios sobre o arquétipo do Puer Aeternus. São Paulo: Paulus, 1999. ______. Uma busca interior em psicologia e religião. 4.ed. São Paulo: Paulus, 1984. JUNG, Carl Gustav. Aion, estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Vol IX/2. 7 ed. Petrópolis: Vozes, 2008a. ______. A Natureza da Psique. Vol VIII/2. 5 ed. Petrópolis: Vozes, 2000a. ______. Mysterium Coniunctionis. Vol XIV/2. Petrópolis: Vozes, 1990. ______. Os Arquétipos e o inconsciente coletivo. Vol IX/1. Petrópolis: Vozes, 2000b. ______. Tipos Psicológicos. Vol. VI. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 2008. LOTHURSDOTTIR, Alfta Svanni. Loki: Friend of Othinn. Northvegr Foundation, 2003. Disponível em: < www.northvegr.org/northern/book/loki.php>. Acesso em: 26 set. 2009. PALACIOS Q., Enrique. Loki. Brathair 7 (2), 2007: 142-151. Disponível em: . Acesso em: 13 out. 2009. POETIC Edda. Século XIII. New York: Oxford University Press, 1999 (Trad. de Carolyne Larrington). SANFORD, John. Mal: o lado sombrio da realidade. 3 ed. Sâo Paulo: Paulus, 1988. STURLUSON, Snorri. Edda.Vermont: Everyman, 1995.
|
|
|
| |
|
| |
Instituto Junguiano do Rio Grande
do Sul
filiado a AJB - Associação Junguiana do Brasil
e à IAAP - International Association for Analytical Psychology |
|
|
|
 |
 |
 |
|
|
|